Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

O milagre

A Igreja Católica é das instituições mais conservadoras do nosso tempo. Costuma-se dizer que o seu "atraso" para com a contemporaneidade é de 100 anos. O estilo do Papa Francisco quebra a tradição mais formal. Possui uma abordagem de extrema humildade. Com a abertura que pretende que a igreja tenha para com a sociedade, como seja este último apelo que fez à integração de casais homossexuais na vida da igreja, tem posto a nú a imensa oposição existente contra si, particularmente de teólogos conservadores. Com tamanho atrito sistémico a eleição do Papa Francisco pode bem ter sido um milagre. Infelizmente, dada a sua idade, não viverá o bastante para conseguir mudanças definitivas na igreja. Temo até, que à sua morte, a igreja recue e se volte a fechar sobre si própria.

“Vacina” à portuguesa

A aplicação móvel "StayAway Covid"

O objectivo primordial do Governo ao investir no desenvolvimento deste tipo de aplicação é colmatar a falta de capacidade em rastrear os contactos das pessoas infectadas. Os governantes viram aqui uma oportunidade de evitar contratações, evitar maiores gastos em recursos humanos, como se o SNS já não fosse carente nessa matéria, mesmo antes de começar esta crise sanitária. Muitos saberão que antigamente diversas instituições públicas, como sejam as escolas ou os centros de saúde, possuíam pelo menos uma pessoa cujas funções eram de telefonista. Pois à medida que os telefonistas deste país, dos diversos serviços públicos, se foram reformando, extinguiu-se esse lugar e distribuiu-se a função por trabalhadores de secretariado, funcionários cujas funções eram apenas o atendimento presencial e viram-se com mais este papel a desempenhar, e até, por vigilantes de segurança privada, cujo papel de controlo de acessos se vê acumulado com esta tarefa que em nada tem a ver com a cultura de segurança. É deste tipo de recursos humanos que também o SNS está carente, e um telefonista não leva quatro ou cinco anos a formar-se como um médico ou um enfermeiro intensivista. Elaborar uma aplicação para substituir uma tarefa humanizada, como se na saúde a humanização não fosse importantíssima, a mim não me convence.

A aplicação baseia o seu funcionamento no Bluetooth. Mas a própria limitação tecnológica do Bluetooth impede a aplicação de ter a capacidade de medir distâncias e de avaliar apenas o que está até dois metros. O Bluetooth tem uma cobertura que anda à ordem dos dez metros. A diferença do ideal dois metros para uma realidade no terreno que vai aos dez metros é uma diferença que desencadeará muitos mais falsos alarmes, subcarregando ainda mais o sistema, com contactos desnecessários para o centro de contactos do SNS, realização de testes desnecessários, e uma maior quantidade de processos igualmente suportados pelo SNS. Os dez metros que o Bluetooth é capaz de cobrir só diminuem à medida que se colocam obstáculos na frente, como paredes, divisórias, vegetação, etc. A aplicação usando esta tecnologia poderá detectar, por exemplo, contactos próximos dois andares acima ou abaixo de nós num mesmo prédio. Pode associar que todo um escritório open space é um contacto próximo de nós, mesmo sem o ser. É esta falta de definição que também não me convence, retirando a credibilidade e confiança que se poderia ter com a aplicação.

Quando a aplicação portuguesa foi desenvolvida, muitas outras internacionalmente já se encontravam em uso. Apesar de se ter constatado que a nível internacional este tipo de soluções estavam a ser um completo fracasso, o projecto português nunca parou. O Primeiro-Ministro quer empurrar a responsabilidade para a população, mas quem tem de justificar o investimento público de 400 mil euros é ele, que teimosamente avançou com este paliativo como se tratasse da invenção da vacina portuguesa.

Por outro lado, o autoritarismo que o próprio Primeiro-Ministro já admitiu ter praticado ao querer impor o uso da aplicação nunca resolveu nenhuma pandemia. Pelo contrário, cria repulsão, revolta e falta de confiança. Custa-me a crer que isto tenha sido apenas para o “abanão” que António Costa julga necessário. E como me custa a acreditar que o Primeiro-Ministro visse este caminho como válido, sendo ele um político ardiloso, a dita bomba autoritária foi atirada com o intuito de criar o ruído necessário para que se desvie a atenção das negociações do Orçamento do Estado. Não deixará, no entanto, de ter consequências políticas, pois nem a brincar o autoritarismo é bom.

Prontos para a “bazuca”

A probabilidade de vir aí uma “pipa de massa” deixou este pacato país inquieto. Os abutres descaradamente chegam-se à frente nervosos e desavergonhados, tropeçando uns nos outros. O debate sobre a corrupção e o mau uso que tradicionalmente se dá aos dinheiros públicos não vai acabar. A prática não abrandou e continua bem presente. Exemplo disso é a derrapagem nas obras do antigo Hospital Militar de Belém.

Os indícios de derrapagem já há muito circulavam, mas só na passada semana o Governo, discretamente, confirmou que estavam estimados 750 mil euros para as obras e que a factura subiu até aos 2,6 milhões. Trata-se de uma derrapagem colossal, estranhamente sem reacções. A notícia surgiu discretamente e assim permanece. Com as distracções viradas para o Orçamento do Estado, deixando a oposição anestesiada, a comunicação social ocupada e o cidadão manso. Como não houve exposição, não há pressão para um maior alongamento nas informações. Não há simplesmente respostas e avança-se para uma auditoria, que se perderá no tempo, com conclusões dúbias, só para não se dizer que nada se fez.

A proposta do Governo para a alteração às regras da contratação pública de modo a agilizar as empreitadas e a atribuição dos fundos europeus foi considerado pelo Tribunal de Contas como facilitador à corrupção. Dias depois, o presidente do Tribunal de Contas não viu o seu mandato renovado. O momento em que isto ocorre pode querer dizer tudo ou não querer dizer nada, mas não deixa de levantar a suspeita. Pois afinal, não mudámos nada.

A Europa além da pandemia

Potenciais riscos para a paz

No centro das deterioradas relações entre Erevan e Baku encontra-se a região do Nagorno-Karabakh, no Cáucaso do Sul, onde há interesses divergentes de diversas potências, em particular da Turquia e da Rússia que em parte fazem parte da Europa. A própria União Europeia assinou em 1999 com o Azerbaijão um acordo de parceria e cooperação com o intuito de proteger e “promover um conjunto de países bem governados, ao Leste da União Europeia”. A parceria Oriental da União Europeia com o Azerbaijão, Arménia, Geórgia, Moldávia, Ucrânia e Bielorrússia teve como objectivo melhorar as relações políticas e económicas dos seis países pós-soviéticos, que possuem uma importância estratégica de segurança e estabilidade, nomeadamente para o abastecimento energético vindo do Azerbaijão, país rico em petróleo e em recursos naturais encontrados no Mar Cáspio. Este conflito veio colocar essa estratégia em causa.

Entretanto, a União Europeia processa o Reino Unido por quebra do direito internacional. O acordo para o Brexit não está a ser cumprido pelo Reino Unido, estando ainda muito nebulosas as consequências que daí advêm. O que acontecerá se o Reino Unido continuar a não cumprir o acordo?

Os populismos, a extrema militarização, e as democracias tradicionais a perderem a noção dos seus fundamentos são um ataque aos valores europeus. A Bielorrússia, conhecida como a “última ditadura da europa” volta a dar provas de que a sua democracia não está consolidada. Não é caso único. Na Polónia, o nacionalista e ultraconservador Governo não hesita em sacrificar a Justiça, a Liberdade, a Democracia, os Direitos Humanos e o Estado de direito. A Turquia, que esteve na calha para se tornar membro da União Europeia, membro actual da NATO, tem como presidente Erdogan, um líder cada vez mais autoritário, de um país cuja política externa não demonstra uma estratégia coerente.

Altar da nossa história

Os dias de Outono não me fazem sentir a necessidade de recolhimento forçado. Chove esporadicamente, o sol está envergonhado, mas resolvi fazer a vontade à mulher. Ela queria sair sem destino, ao meu critério. Aproveitei então para passar pelo Corno de Bico antes de seguir rumo ao destino final.

Há uns anos atrás, antes sequer de frequentar o secundário, conheci um senhor de idade avançada, pessoa educada, de trato fácil, generoso e amigo. Apesar dos 50 anos que nos diferenciavam, fizemos passeios pela vila de Sintra e convivíamos nas suas esplanadas como de avô e neto se tratasse. Esta relação veio pela vez do pouco relacionamento que me fora permitido com os meus avós. Este senhor já faleceu há bastantes anos, mas continuo a nutrir por ele um sentimento especial. Apesar de viúvo e de viver sozinho, tinha as suas filhas a viverem por perto, mas que não lhe davam a devida atenção. Nunca me esqueci daquelas mãos cheias de artroses, fruto também da vida de trabalho difícil. Poucas vezes se queixava, gostava de parecer forte, e na realidade era mesmo! Começou a trabalhar muito novo, indo para Lisboa em busca de melhor vida e oportunidades. Na sua terra, Sistelo (Arcos de Valdevez), não iria ter grande futuro. No entanto, visitava-a com frequência, telefonando-me a anunciar a sua chegada através do telefone fixo da mercearia da aldeia. Ainda hoje, a cobertura de rede móvel é uma vergonha.

Visitar a terra do Danilo é como que reviver a nossa história. Os almoços em sua casa, as pataniscas, o café feito de mistura entre o de São Tomé e Príncipe e o do Brasil, que só ele sabia como fazer, em que quantidades misturar. Visitar a sua terra é honra-lo, é não esquecer o aroma e sabor daquele café, o melhor que já bebi!

Chegámos há pouco vindos da aldeia do Sistelo. Sinto que ele ainda está comigo.

Lixívia de oito em oito horas

The European Union is worse than China, just smaller

Donald Trump

Os votos de melhoras surgiram das mais variadas latitudes, desde a China, à Rússia, até a Coreia do Norte. Da Europa foram enviados semelhantes votos, mas eu, como não vou em hipocrisias, desejo sinceramente que seja verdade, que Donald Trump esteja infectado e doente com a covid-19, que passe por um mau bocado e que lhe dêem o tratamento da lixívia tal como recomendou. É das poucas coisas boas que o vírus pode trazer ao mundo.

Para já, mantenho a minha desconfiança. Se Trump "recuperar" terá sido sempre uma jogada para as eleições. Se morrer, é porque efectivamente era verdade.

Plano futurista de 1986

Ligar Bragança a Puebla de Sanabria

Vamos fazer uma estrada de 20 km que colocará Bragança como a cidade portuguesa que estará a menos tempo de distância de Madrid

Foi ontem que António Costa na sessão pública de apresentação das prioridades do Plano de Recuperação e Resiliência nacional à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, proferiu este anúncio.

Pois eu fiquei perplexo porque se anda a argumentar que aproximar “a capital de distrito mais isolada do país” do centro da península ibérica, passando a distar cerca de meia hora de uma rede de alta velocidade em Puebla de Sanabria, é um reforço da coesão territorial do país.

Quanto muito estaremos a falar de coesão ibérica, pois a coesão nacional faz-se aproximando Bragança do restante território português! Este tipo de populismo bacoco revela ignorância e causa-me a maior das desconfianças quanto à capacidade para levar estes planos adiante.

O melhor que o "projecto futurista" tem para oferecer a Bragança é uma estrada para Espanha que está no papel desde 1986!

Relações no Atlântico Norte

Portugal e os EUA

Os EUA são um país em declínio que tem vindo ao longo destes últimos tempos a mostrar as suas fraquezas. Encontra-se nas bocas do mundo por motivos que até causam vergonha alheia. Não se esperava que o país que supostamente está à frente da democracia no mundo vivesse episódios de tão baixo nível. Já se fala inclusivamente em como é que – se não for reeleito – se irá retirar Trump da Sala Oval caso este não aceite os resultados. Se serão os serviços secretos que o vão arrastar, pondo-o de lá para fora.

Eu acho que devíamos fazer um processo de aprendizagem. O nosso quadro mental já não devia estar tão orientado para os Estados Unidos. Os Estados Unidos estão desinteressados da Europa e nós devíamos retribuir na mesma moeda. Devíamos interessar-nos mais pelas nossas próprias instituições a nível interno e no quadro europeu, enquanto ainda houver União Europeia. É bem mais importante focar-nos em nós, sem, no entanto, retirar totalmente a actualidade a este tema, com a consciência de que as relações no Atlântico Norte já não são o que eram e que o interesse nos EUA só se manterá enquanto ainda forem o baluarte das democracias ocidentais.

As ameaças contra Portugal trazidas pelo embaixador americano, que na sua entrevista de ontem ao jornal Expresso disse claramente que Portugal terá de escolher entre os Estados Unidos ou a China para alianças ou aprofundamentos comerciais, revelam um tom de ameaça pouco próprio de quem se define como aliado, amigo ou parceiro. Não se pode aceitar qualquer exigência vinda do outro lado do Atlântico, porque em Portugal mandam os portugueses, como bem respondeu, e sem demora, o nosso ministro dos negócios estrangeiros, Augusto Santos Silva. Esta preocupação dos Estados Unidos sobre quem desenvolve a tecnologia móvel 5G em Portugal, bem como, qual a empresa escolhida para as obras no porto de Sines, vem mostrar que não seremos assim tão insignificantes no quadro mundial como muitas vezes se julga.

No Outono

Chegou o Outono, e com ele, as tonalidades mais quentes, os sabores mais encorpados e envolventes. É um novo despertar para os sentidos, as sensações mais confortantes, de uma lareira acesa, de um chocolate quente ou um café, de um vinho maduro, os sons da chuva e do vento, das árvores que se agitam e se despem. Pode o Outono ser uma estação de extrema felicidade. De maior elegância nas roupas, nos sabores e nas leituras. Estou ansioso por acender a salamandra, dar aquele calor diferente à casa. Trabalho melhor no Outono. Suportam-se muito melhor as máscaras, que nos ajudam a aquecer o rosto, e a combater o vírus. No Outono quase tudo é bom e sabe bem. No Outono, vou ser feliz.

Um covid ao desleixo

Ouvi um colega meu a argumentar que a origem desta crise, em que o desemprego aumenta, que fecha empresas, que aniquila o turismo, que sobrecarrega os serviços de saúde e que faz dos lares antecâmaras da morte, não é o vírus ou a doença por ele provocada. A culpa “é dos jornalistas que vão foder isto tudo”. Para quem já esteve infectado – ele próprio – revela grande consciência do que se passa. Aliás, a maioria dos meus colegas que já foram infectados revelam tamanha consciência, que permanecem no uso da máscara com o nariz de fora.

No sábado, um telefonema desde um dos maiores centros comerciais de Braga indicava que o número limite de pessoas dentro das lojas não estava a ser respeitado. A maioria dessas pessoas nem sequer lá teria ido para fazer compras, mas como chovia, e como é hábito, quem não está para permanecer em casa sossegado, dirige-se para os centros comerciais.

Há dias, ao passar por um quiosque com esplanada, junto ao Centro de Nanotecnologia de Braga, deparei-me com um amontoado de idosos – eram uns vinte, no mínimo – em que uns andavam de máscara ao queixo e outros nem máscara apresentavam. Enquanto a meteorologia permitiu, também o jardim do centro de Caldas das Taipas era ocupado por idosos que se juntavam – decerto – à procura do “bicho”.

Os homens de meia-idade, tal como os idosos, não estão para aturar as mulheres. Era ver esplanadas cheias e as cervejas à frente. Distanciamento é que não havia, mas pelo menos havia tremoços.

São inúmeras as pessoas que fazem o uso da máscara apenas para poderem frequentar os espaços onde ela é obrigatória. Tal como a estudantada que agora a tem de usar na escola, mas mal saem cá para fora, em ameno convívio, tiram-nas fora.

Eu não gosto de me ver neste lado crítico e de observador do que andam afinal os outros a fazer da sua vida. Nem estes exemplos são a maioria – assim espero. Nem tão pouco me vejo com uma moralidade superior, mas cumpro com o que se exige muito antes de ser obrigatório. Não deixo, no entanto, de suspeitar que pelo menos uma bactéria anda a atacar as cabecinhas de muita gente. É certo que o covid pode não matar a maioria – quem somos nós para pôr a vida de uma minoria em causa; pode até ser maioritariamente assintomática e, como o cigarrinho, dois copitos ou mesmo uma passa, está a acabar por ser socialmente aceite.