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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

São João

Sardinhas na brasa

Apesar de todos termos um local de origem, nunca senti uma ligação a um só lugar. Sou um misto de tudo por onde já passei. E apesar da origem sulista, cheguei a terras nortenhas já com grande escola do São João. Sempre foi a noite de maior felicidade e folia, não que em Sintra se comemorasse, pois Sintra é São Pedro. No entanto, como muitos dos que vivem na ruralidade sabem, o café é o centro da aldeia. E quando o dono do café comemora o seu aniversário no São João e tinha por tradição oferecer febras e sardinhas a todos os quantos apareciam, e com isso, o pão saloio típico da região que a sardinha tão bem molha, temos motivo para ficar a cheirar a fumo, saltar as fogueiras, e deitar tarde em comemoração com todos os quantos faziam parte daquela comunidade, num oásis são-joanino fora da caixa. O São Pedro que nos perdoe!

Este ano não houveram as habituais comemorações nas cidades, mas de há uns tempos para cá tenho optado mesmo pelas festas privadas. Mantêm aquele sentimento, mas em ambiente controlado e muito mais descontraído sem os problemas do estacionamento e das bebedeiras. Este ano as sardinhas estavam mesmo boas como já não as via há muito, babando-me a broa toda e enchendo-me a alma. Que ricas que estavam as sardinhas…

Retrato pandémico

Tenho tido alguma renitência em puxar atrás um assunto que tanto desgaste tem causado nas nossas vivências. No entanto, sinto a necessidade de o fazer porque eu saí do que foi o padrão. Fui um dos que não parou, tendo por isso uma experiência diferente de quem se viu em confinamento.

Começo por falar da Organização Mundial da Saúde e da nossa Direção-Geral da Saúde. Estiveram a meu ver muito mal nas orientações. Foi no final de Fevereiro que tomei consciência do que aí vinha, e por isso tomei providências no sentido de conseguir protecção, pois fazia intenções de continuar a trabalhar, mas com responsabilidade. É aliás a falta de responsabilidade individual, de consciência e de inteligência que levam à necessidade de se confiar e colocar as nossas vidinhas nas mãos de organizações. É que assim é mais fácil culpar estas quando alguma coisa corre mal. Na verdade esteve mesmo para correr mal, não tivesse sido o medo que as imagens vindas de Espanha e de Itália causaram. Paralelamente a isso, as autoridades de saúde não só não aconselharam no momento devido o uso de máscaras como até desaconselharam com o argumento do mau uso, passando óbvio atestado de bovinidade à população. Eu, que obtive formação na área da segurança, sempre entendi que no enfrentamento de uma agressão desconhecida o sensato é agir com a maior das restrições, ganhando tempo, e depois sim, à medida que surge a informação e o conhecimento, então modela-se os níveis de segurança, ajustando-os à real necessidade. O Governo português tomou a meu ver relativamente tarde as providências, mas ainda assim a tempo de evitar o caos. No entanto, quando estamos a lidar com um vírus cujas evidências já apontavam para contágios através do ar, o uso de máscara é desaconselhado pelas autoridades de saúde. Isto para mim é matéria que devia levar ao apuramento de responsabilidades a quem tem o papel de aconselhar bem a população.

A globalização, que por um lado teve um papel disseminador da infecção, por outro lado poderia ter servido para nos fazer questionar qual o motivo que levava os asiáticos a usarem massivamente máscaras. Só agora se veio a saber que se deve à experiência que tiveram com a primeira versão do SARS-CoV. Costumo dizer que quanto mais facilitado é o acesso à informação, maior é a ignorância.

Numa altura em que as máscaras escasseavam obtive-as por portas e travessas, começando-as por usar logo no início de Março. A reacção dos meus colegas foi de estupefacção, de olhares incrédulos e de absoluta ignorância. Em todo o período pandémico os trabalhadores que não pararam estiveram abandonados, nomeadamente por parte dos sindicatos, da ACT, mas acima de tudo por parte das empresas que legalmente sempre tiveram a obrigação de fornecer os EPIs aos trabalhadores. Foi preciso passar um mês para que a empresa onde trabalho começasse a disponibilizar máscaras, viseiras, e adoptasse normas de protecção (marcações no chão, medição de temperatura corporal, limpeza de espaços comuns e disponibilização de pontos de desinfectante para as mãos), sendo ainda assim um dos melhores exemplos de que tenho conhecimento.

A nova realidade – que começou pelo uso de máscara – estendeu-se também à mudança dos hábitos de consumo. Deixei de frequentar supermercados de grandes dimensões e rendi-me ao comércio tradicional. Tanto quanto sei, nestes tempos pandémicos as mercearias ganharam um novo fôlego, e eu sem dúvida que também contribui para isso.

Inicialmente, todos os dias pareciam dias de luto. O peso diário dos números que fazia questão de acompanhar era doentio. Todos os espaços que tivesse de partilhar com outras pessoas eram como zonas de guerra. Depois, como o medo é passageiro e a sensatez prevalece, comecei a encarar as coisas com naturalidade, principalmente quando se generalizou o uso da máscara.

O movimento – ou a falta dele – nas ruas foi o meu barómetro. Como moro perto do meu local de trabalho, a ausência de movimento na estrada não me criou grande benefício, deu-me antes uma noção real de como tantas pessoas tinham deixado de trabalhar. De resto, fez-me sentir um privilegiado por trabalhar na única empresa da área que se manteve com laboração a 100% em todo o período. O facto de grande parte dos nossos clientes se encontrarem na Ásia foi crucial. Levantou-nos no entanto, em determinada altura, problemas com os transportes. Os aviões escasseavam e o nosso produto não era prioritário pois não é de primeira necessidade. Nesse momento, escoar a produção através de navios passou a ser uma das alternativas, e até ligações por ferrovia se tentou, uma vez que a partir de Madrid existe uma linha ferroviária internacional que segue até à China.

Neste momento cheguei a um ponto de equilíbrio. O uso de máscara tornou-se rotina e a proximidade e o atendimento personalizado do comércio tradicional satisfaz-me. É certo que o contacto mais próximo com outras pessoas é evitado, mas eu nunca tive necessidade de levar uma vida muito social. Sou mais adepto da contemplação, do recato e da tranquilidade.

Uma sociedade imatura e estagnada

Os especialistas dizem que as crianças tendem a imitar os adultos de uma forma muito mais intensiva durante os primeiros cinco anos de vida, e que essa característica revela que ainda não possuem um senso crítico ou um pensamento mais sofisticado para inferir se o que os adultos fazem ou dizem é adequado, útil ou moral.

Quando surgem fenómenos sociais de imitação é isto que me ocorre. Se necessitamos de exemplos vindos dos Estados Unidos para reagir, então estamos socialmente pouco maduros.

Uma sociedade mais avançada não se limita a manifestar-se contra o racismo, luta pela diversidade. Reduzir o manifesto aos afro-descendentes é poucochinho. Enquanto numa mesma manifestação não se juntarem pretos e brancos, ciganos e judeus, asiáticos e sul-americanos, gordos e magros, feios e bonitos, então não haverá dimensão que combata não apenas o racismo, mas qualquer forma de preconceito e discriminação.

Recordo-me perfeitamente de há mais de vinte anos atrás fazer trabalhos escolares relacionados com o VIH/SIDA, a droga e o racismo. Eram temas sistematicamente batidos em meio escolar. Merecendo estes temas a mesma reflexão que se realizava há vinte anos, tenho toda a legitimidade para acreditar que socialmente estamos estagnados nestas matérias.

Não é civismo, é cagufa

Distanciamento social

A história dos portugueses se terem portado bem está muito mal contada. É certo que a fase do confinamento terá corrido muito bem, aparentando alto grau de civismo por parte da população. No entanto, e como apesar de ser um adepto do distanciamento social mesmo antes da pandemia, ninguém me convence de que a sociedade portuguesa é altamente civilizada. É aliás o distanciamento que nos dá uma imagem mais ampla dessa realidade. Para além disso, pede-se mais humildade uma vez que países como a Grécia mantêm até ao momento resultados esmagadoramente melhores que os nossos, já para não ampliar até exemplos em latitudes asiáticas.

O que aconteceu tem outro nome, e não é civismo. Diga-se antes, cagufa! Sim, o medo é que controlou as pessoas. Foram aquelas imagens que chegavam de Itália e de Espanha que alarmaram a população, fechando cada um no seu casulo. Poucos fizeram caso do que se estava a passar na China, mas a Espanha, caraças, essa é demasiado próxima de nós. Não vou esconder que a mim me assustou, não há como não assustar! Ver gente com aquelas vestimentas em cuidados intensivos, como se fossemos estar sujeitos a experiências científicas do mais invasivo que possa existir.

Eu tive a sorte de nunca parar, por isso, como sempre tive justificação para circular por motivos profissionais pude assistir todos os dias ao que se passava nas ruas. E nessa fase mais crítica todos os dias acordei de manhã como se fosse para a guerra. O meu posto de trabalho tornou-se na minha trincheira. Muito antes da empresa tomar providências, tomei eu as minhas medidas. Como tive acesso por portas e travessas a máscaras, no fim de Fevereiro comecei a surgir de máscara no meu posto de trabalho. Fui olhado como se fosse um animal exótico que ali aterrou. Foi preciso passar um mês para que após o surgimento de casos na empresa, surgissem finalmente decisões, que por força da obrigatoriedade a todos metesse uma máscara na focinheira. E é aqui que queria chegar, pois após a fase da cagufa só a obrigatoriedade mantém as pessoas cumpridoras, porque afinal de contas, as pessoas não estão habituadas a pensar por si e a praticar aquilo a que se designa de responsabilidade individual. O típico português não é responsável nem tão pouco gosta de se dar ao trabalho de pensar. É mais fácil apontar o dedo ao Governo, ao Estado, às instituições como a Organização Mundial de Saúde ou a Direção-Geral da Saúde quando alguma coisa corre mal, do que tomar cada um as suas próprias providências para se proteger a si próprio e os outros.

A fase do dito confinamento terminou e com ela foi-se a cagufa. Como o medo é um sentimento transitório e temporário, e como o animal humano tem grande capacidade de adaptação, já convive bem com a presença do vírus, mesmo com a chegada de imagens semelhantes às espanholas e italianas, mas desta feita com o epicentro pandémico voltado para os EUA e o Brasil, já longe, portanto. Exemplo disso tem sido o comportamento nos cafés, sem cumprimento de qualquer das normas. Aliás, durante o confinamento muitos dos cafés mantiveram-se a funcionar de forma clandestina com os clientes a entrarem pela "porta do cavalo", maioria deles em faixa etária de risco. Paralelamente a isso, nos meus passeios pedonais após o jantar, verifico a existência de imensos grupos de jovens que se comportam como se vivêssemos tempos normais. É curioso que inicialmente se andava a apontar o dedo aos idosos e agora se aponta aos jovens.

Neste momento estamos a voltar a números de novas infecções semelhantes a fases iniciais da pandemia. Há quem diga que estamos melhor preparados, mas sem o medo será muito mais complicado levar a população a entender que tem de ser responsável para o bem comum. Ainda para mais, quando socialmente estamos numa fase de individualismos e muito pouco de colectivismos. É o que denomino de conceito selfie.

Ecrã táctil, essa tecnologia de ponta aeroespacial

Módulo Dragon da SpaceX

Os astronautas Bon Behnken e Doug Hurley, que no último sábado tornaram-se os primeiros a viajar à Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo de um veículo de uma empresa privada, relataram a sua experiência. De tudo aquilo que disseram o que mais me chamou à atenção foi indicarem como um grande avanço a utilização de ecrãs de toque, o que diminui substancialmente as dimensões do painel de bordo.

O programa espacial dos EUA em 2020 é isto, o deslumbramento de astronautas por finalmente terem touchscreens a bordo. Longe vai o tempo em que era o programa espacial a desafiar o desenvolvimento tecnológico.

A queda de um gigante

Bandeira dos Estados Unidos da América

Desde pequeno fui bombardeado pela cultura norte-americana. Começava desde logo pelos discos de vinil do meu pai e a música que sempre passou na rádio. As séries que chegavam pela RTP e que inesquecivelmente marcaram os anos 80 e 90. A tecnologia produzida pela Microsoft desde o velhinho MS-DOS e que influenciou o meu percurso formativo.

O imaginário americano era grandioso e cativante, de tal forma que se tornava também meu e que marcou o percurso da minha vida em diversas ocasiões. No entanto, os anos foram passando e aquela cultura e modo de vida, que tanto influenciou a nossa sociedade, foi enfraquecendo e o meu interesse dissolveu-se adivinhando o declínio previsível daquela superpotência.

O país que foi exemplo de democracia desmorona-se com o passar dos anos, abrindo feridas mal saradas como seja o racismo, que sempre esteve presente na sua formação enquanto nação, e que pelo que se vê, até aos dias de hoje. Foi com o cair das torres gémeas que acordei para o levantar da poeira. Aquele país nunca precisou de olhar para o exterior porque ele próprio era um mundo. Mundo esse que nunca mais será o mesmo. Uma desilusão decrépita, de soul enfraquecido.