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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Resposta galega à polémica portuguesa

A resposta da Galiza não tardou. O presidente da Junta da Galiza, Alberto Nuñez Feijóo, recebeu o embaixador de Portugal em Espanha, João Mira Gomes, para lhe dar conta de que a preocupação com Portugal deve-se “aos estreitos laços que nos unem”. As gentes do norte mantêm um relacionamento de longa data com os irmãos galegos. Um mesmo povo, dividido por uma fronteira.

A resposta de Alberto Nuñez Feijóo foi à altura. Disponibilizou o serviço de saúde galego a todos os portugueses, caso assim necessitem. No esclarecimento ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português, ficou esclarecido que a informação pedida aos viajantes portugueses serve para facilitar o acesso à rede de cuidados de saúde da Galiza.

Outro ponto positivo foi a decisão que a partir de agora haverá troca de informação sobre a situação epidémica da Galiza e de Portugal, nomeadamente da região do Norte de Portugal, com reuniões entre as autoridades de saúde de Portugal e da Comunidade Autónoma da Galiza. A Galiza pretende aqui uma clarificação e diferenciação regional, de modo a actuar consoante a incidência de Covid-19 na origem de cada visitante português.

A Galiza prova mais uma vez a proximidade para connosco. Pretende “regionalizar Portugal” para actuar de forma diferenciada, coisa que nenhum outro território europeu optou por fazer. Com isto surge também a aproximação dos dois sistemas de saúde.

Birra à portuguesa, desta vez com os galegos

A Galiza começou a fazer um pedido aos portugueses, um registo que deverá ser feito dentro das primeiras 24 horas após entrada no território autónomo. Esse registo deverá ser feito telefonicamente ou através do preenchimento de um formulário no site do SERGAS (Serviço Galego de Saúde).

Os portugueses (ou será antes a comunicação social?) entraram novamente num papel ridiculamente repetido: o da vitimização. Fiquei surpreendido até com as declarações do autarca de Valença, uma vez que a sua condição de raiano deveria dar-lhe outra sensibilidade e outro conhecimento neste processo. Por outro lado, já não me surpreendeu o título usado na CMTV, que indica a nossa entrada na “lista negra” da Galiza.

Uma vez que os portugueses são por hábito grandes visitantes da Galiza, o que os galegos simplesmente nos vêm pedir é um registo, para o caso de ocorrer algum surto ou nos vermos envolvidos numa cadeia de contacto e transmissão de Covid, poderem nos contactar de forma mais célere. É que para todos os efeitos, uma vez entrados na Galiza, o sistema de saúde galego não tem qualquer informação a nosso respeito.

Isto em vez de causar incredulidade devia antes levantar a questão sobre a possibilidade do nosso Serviço Nacional de Saúde e o SERGAS poderem interagir de forma mais próxima, quem sabe, partilhando recursos nas zonas raianas, tornando o sistema mais eficiente e reduzindo custos, nomeadamente com a criação de dois polos (em Valença/Tui e em Chaves/Verín), partilhando especialidades nos dois lados da fronteira. Isto sim seria um passo à frente, muito mais à frente do que a própria integração europeia que nunca se debateu com a ideia de partilha e interacção entre os diferentes sistemas de saúde, apesar da criação do Cartão Europeu de Saúde, que se resume a uma identificação para encaminhar a cobrança de serviços de saúde prestados.

O facto de partilharmos informações com o SERGAS funciona não só em defesa dos galegos como também em nosso próprio benefício. Eu, se me encontrar envolvido num surto ou numa cadeia de transmissão de Covid, tenho todo o interesse em ser informado e devidamente orientado. Mas nós, muito gostamos do triste fado, do papel de oprimidos, deste complexo de inferioridade. Ninguém nos barrou a entrada, ninguém nos impôs quarentena.

Para que tudo fique na mesma

Aquando das restrições pandémicas tudo se fez para que a economia não parasse – eu não parei – sem que contudo fosse também assegurado o direito ao lazer. Vivemos num modelo económico e social ultrapassado. A necessidade produtiva sobrepõe-se à necessidade humana de simplesmente viver. Este modelo idealiza longas jornadas produtivas e enclausuramento até nova jornada de trabalho.

A necessidade da redução do número de horas trabalhadas reside com a necessidade do aumento da qualidade de vida das pessoas, prevenindo o aparecimento de novas doenças ligadas ao stress e à depressão. Também contribui para maior dedicação à vida familiar, à cultura, ao lazer, enfim, a viver para viver e não a viver simplesmente para trabalhar. O bem-estar das pessoas deve estar sempre em primeiro lugar, contribuindo para o aumento da felicidade.

Ocorreu o necessário salto evolutivo desde a escravatura, pelo menos no que à legalidade diz respeito e ao que socialmente é aceite. O trabalho efectivamente foi valorizado, mas nunca houve tanto trabalho escravo e exploração humana como agora, e isso deveria dar que pensar.

O trabalho terá necessariamente de ser ainda mais valorizado, mas acima de tudo, as pessoas enquanto humanos terão de ser ainda mais valorizadas. Todos devíamos trabalhar para atingir a plenitude de maior felicidade e satisfação mas, em vez de se aproveitar esta nova realidade para uma ruptura e mudança civilizacional, tudo está a ser feito para que tudo fique na mesma.

Dia da Galiza

Bandeira da Galiza

A escolha do dia em concreto foi decidido numa reunião de nacionalistas, poderia pois ser noutro dia qualquer. No entanto, o simbolismo do dia pode extravasar para outro dia qualquer. Todos os dias são Galiza, enquanto houver Galiza.

A importância de assinalar este dia prende-se com a defesa de uma identidade que como portugueses nos deveria interessar especialmente pela ligação histórica e cultural. Urge amplificar este dia, que tradicionalmente se compõe com uma manifestação em Santiago de Compostela, capital da região autónoma. É de extrema importância dar relevo à língua galega – que se encontra em declínio de falantes – como base identitária, assumindo o orgulho de a falar sem os complexos do passado.

A casa e os galegos

Gosto muito de casas. Sou muito de estar em casa, no meu espaço, no meu conforto. Mas não gosto de qualquer casa. As casas, para mim, têm de ter carácter, personalidade e charme. As minhas casas são assim: rústicas, em pedra, com muita madeira, mas diferentes.

Recentemente adquiri uma casa bem perto da Galiza. Está enquadrada numa paisagem de montanha, muito em contacto com a natureza. O meu investimento aí foi a pensar na paz e na tranquilidade que lá se respira. A ideia não é ter luxos, mas antes ser um espaço de liberdade em comunhão com o meio envolvente. Tem tudo para proporcionar felicidade, com uma churrasqueira, quintal com árvores de fruto e horta, espaço para ferramentas e mobiliário de jardim e lazer. Tem uma paisagem incrível, panorâmica, com a Serra D’Arga em pano de fundo. Apresenta um céu despoluído de luz, o leitor que sabe o que isso é já está a imaginar a beleza nocturna daquele céu estrelado. Também imaginará o pôr-do-sol e o bem que ele ficaria dentro de uma moldura. Se eu tivesse sido obrigado ao confinamento pela pandemia, já tinha os meus planos para aqui dirigidos.

A proximidade com a Galiza despertou-me uma enorme curiosidade sobre os nossos vizinhos a norte. Surgiu-me um sentimento que se pode explicar como o encontro de um irmão que nem sabia que tinha. Quanto mais quis saber, mais me aguçava o interesse. Primeiro, a língua. Começa por soar a um espanhol estranho, mas, subitamente torna-se incrivelmente familiar, de tal forma que começa a soar a português. O galego tem um surgimento em comum com o português. Foi do galaico-português que derivaram estas línguas irmãs. Mas, podia limitar-se a isso, a falarmos línguas irmãs, só que não. A cultura e a gastronomia são muito semelhantes à nossa. E quem puxar atrás a fita cronológica deparar-se-á com a mesma realidade territorial. A fronteira galega já foi bem mais a sul, e a primeira das capitais do Reino da Galiza foi a cidade de Braga. Somos na realidade o mesmo povo, mas separado por uma fronteira.

Tenho imensa curiosidade em conhecer galegos. Na realidade, já lido com eles quando lá me desloco às compras. Mas o que quero mesmo é desenvolver amizades do outro lado da fronteira e tornar efectivo o reencontro da irmandade. Devia ser um dever de qualquer português e de qualquer galego. Felizmente que essa aproximação é posta em prática todos os dias com a população raiana, e de forma mais alargada através da televisão galega. Foi aliás através da televisão galega que ganhei a noção do interesse galego por nós, pela nossa música, pelo que somos. É aquele chamamento inconsciente sem que saibamos que afinal somos o mesmo.

Temos o hábito de chamar irmãos aos povos das ex-colónias e à generalidade dos nossos vizinhos espanhóis. Mas não há povo com semelhança e proximidade tão grande a nós como os galegos. São uma verdadeira descoberta!

Estudos feitos à imagem da governança

As conclusões dos estudos divulgados nas reuniões do Infarmed são do mais ridículo que há. Descarta-se o transporte ferroviário como fonte de contágios e justifica-se os surtos da Grande Lisboa com a coabitação.

Tudo aquilo que abranja a responsabilidade política é ilibado com as conclusões dos estudos. O interesse é desresponsabilizar o fraco sistema de transportes e a ausência de fiscalização das condições laborais.

Agora, tal como no confinamento, os trabalhadores estão abandonados à sua sorte, sem garantias de se poderem deslocar em segurança para os seus locais de trabalho, e sem garantias do cumprimento das normas sanitárias nos postos de trabalho. Não é à toa que Portugal no quadro europeu esteja em péssima posição no que aos acidentes de trabalho diz respeito. É a total desvalorização da condição laboral, o abandono daqueles que com o seu trabalho geram a riqueza que o nosso país tanto necessita.

Os surtos que surgem em unidades industriais e em lares da terceira idade provam que este país não é para trabalhadores e muito menos para velhos. Este país é para malandros!

Viver na mentira pandémica

Desde cedo que a pandemia do SARS-CoV-2 tem sido mantida a números, números esses que nos mantêm em luto permanente. Houve uma desvalorização inicial até que as Unidades de Cuidados Intensivos se enchessem e começassem a colapsar em Itália e em Espanha. Ora, com o problema a aproximar-se do Verão, os números que outrora serviam como indicativo, passaram a ser um instrumento de política económica, transformando-se com isso, numa mentira, numa manipulação, quando estamos a falar já na sobrevivência de economias ligadas ao turismo como o nosso Algarve.

Com os números aldrabados e com a manipulação descarada destes, passou-se a constituir listas negras para os viajantes de Verão de modo a redireccionar os turistas para onde mais interessar. Portugal falhou no que à diplomacia diz respeito porque não se apercebeu a tempo do jogo de interesses que se insurgia na Europa. E com isto encontrou-se mais um factor divisório entre os países europeus na disputa de interesses internacionais. Como é que a Grécia apresenta números tão favoráveis, onde existem campos de concentração com pessoas amontoadas? Pois essas não interessam, pelo que não fazem parte da estatística.

Estamos por isso na altura de estudar e procurar alternativas. Não podemos continuar a contar com os bifes nem com os turistas pé-de-chinelo. Todos os estudos que se fazem para prever futurismos económicos são ilusórios. Muitos deles baseiam-se numa saída soft do Reino Unido, quando para nós essa saída já se torna bem real. A decisão dos britânicos é brutal para o Algarve. O resultado será a miséria.

Começa-se a dar a imagem de que os infectados com libras são bem mais interessantes do que os infectados com euros. Essa ideologia algarvia de favorecer o mercado britânico ao mercado interno tem muito a ver com o dinheiro que se traz no bolso. Criou até um sentimento antinacional generalizado e de desprezo que leva a que muitos evitem o Algarve em retaliação. Devemos, no entanto, lembrar-nos de que esta política não é exclusiva do Algarve. O nosso país sempre tratou melhor os de fora do que os cá de dentro.

Échappées Belles

Vivemos numa nova escravatura. A nossa liberdade é condicionada durante pelo menos oito horas diárias impiedosamente. A sociedade encara isso como uma normalidade. Esta necessidade de se trabalhar tantas horas diárias com o objectivo da sobrevivência é ridícula e já devia estar ultrapassada. Para além do que nos rouba, este excesso de número de horas a trabalhar, para além de não se resumir a uma remuneração digna, ainda nos aniquila física e intelectualmente para o restante período que temos até à cama. Como pode isto ser sustentável senão antes um factor para o desenvolvimento de doenças. Como podemos encontrar o bem-estar e o aumento da qualidade de vida, quando vivemos virados excessivamente para o aumento produtivo, económico, do PIB e do que ao dinheiro diz respeito. Já não se vive para os outros e para nós próprios, as pessoas deixaram de ter importância. Importa a criação de riqueza, os números da economia, a produção de riqueza mundial, que terá de ser sempre em crescendo e nunca uma posição estável, com maior equilíbrio e distribuição por todos.

Não obstante da obrigação de ficarmos presos durante longas jornadas diárias, as condições que nos oferecem para trabalhar são também menosprezadas. As temperaturas estão em crescendo, e com este calor excessivo até para um Verão, muitos dos espaços de trabalho não são climatizados. Eu por mim falo, que ao trabalhar com máquinas industriais estou sujeito ao aquecimento dos seus motores. Certo é que os robots que controlo não se queixam. São aliás a personalização daquilo que querem que nos tornemos. Produção em massa, sem dor nem calor.

Chego a casa e meto-me debaixo do chuveiro. Com os olhos fechados imagino-me debaixo de uma cascata rochosa cheia de vegetação à volta. Se a companhia das águas imaginasse a sensação tropical que este banho de chuveiro me dá, não perderiam tempo a subir-me o valor da tarifa da água. A mesma paisagem paradisíaca já me fora outrora apresentada pelo Échappées Belles, programa de viagens produzido pela televisão francesa. Muito do que me lembro debaixo da água do chuveiro vem daqui. E se hoje foi numa cascata, amanhã pode bem ser debaixo de uma chuva intensa numa floresta tropical. Ainda não nos cobram pelo mundo que criamos dentro de nós.