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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

A DGS e o Avante

Foi preciso o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, criticar a falta do parecer da Direção-Geral da Saúde (DGS), a menos de uma semana do início do evento, para que o mesmo surgisse logo a seguir, a um Domingo. Como se isso não bastasse, a mesma DGS nega-se a tornar público o relatório, deixando à entidade organizadora o critério de divulgação.

A necessidade do presidente pressionar esta entidade pública para que faça o seu trabalho atempadamente é por si só uma vergonha. Mas como se isso não bastasse, a DGS comporta-se como se fosse uma empresa privada de consultoria na área da saúde. Como se não tivesse a obrigação da divulgação das suas conclusões. Como se tivesse a prestar um mero serviço ao PCP e não à causa pública.

A Dra. Graça Freitas e a sua equipa não estão à altura desde os surtos da Legionella, em que não havia caso para alarmismos, que tudo se encontrava sob controlo, enquanto os casos se multiplicavam e as pessoas davam entrada nos hospitais. Já em relação à epidemia do SARS-CoV-2, começou por tomar semelhante atitude de desvalorização, que a probabilidade do vírus cá chegar era praticamente nula, que não haveriam evidências científicas que indicassem o benefício do uso de máscaras.

A credibilidade da DGS já não está suficientemente destruída para que se exija um novo rumo?

Dia do cão

Os cães resgatados que vivem comigo

Os meus dois cães: Molly e Bolinhas

Estes dois já tiveram a sua dose. Venho por isso apresenta-los aproveitando o facto de ontem ter sido o dia do cão. Não sou grande adepto de dias atirados aleatoriamente para o calendário, no entanto, compreendo a finalidade em sublinhar a importância a que o dia se dedica.

A Molly (à esquerda) terá sido abandonada. Foi resgatada da rua há já uns anos. Tem um rasgo junto ao olho devido a ataques que terá sofrido na rua. Os seus comportamentos são de quem permanecia muito tempo sozinha e de quem esteve a viver num espaço muito reduzido, dando voltas repetidas em círculos. Tem uma tara por reflexos porque provavelmente no local onde viveu ocorriam com frequência reflexos (por exemplo, com a passagem de carros nas proximidades), tornando-se o entretenimento favorito dela. Talvez lhe venha a oferecer uma bola de espelhos.

O Bolinhas (à direita) sofria de maus tractos. Foi resgatado há coisa de três semanas. As moscas acumulavam-se nas poças de sangue das feridas. Falta-lhe parte das orelhas, comidas pelas moscas. Após duas semanas em que lhe tratei das feridas, as mesmas já sararam e estão a fechar. O objectivo do resgate era resolver o problema das feridas e prepará-lo para adopção, mas já não vai sair cá de casa. Resolvi adoptá-lo dada a gratidão que ele tem para comigo.

Estão os dois muito mal habituados com a maior disponibilidade do dono. É só mimo, passeios e comer. Portam-se muito bem em viagem no carro. Com o fim das férias fico menos preocupado com a Molly, que apesar de ter bastante espaço exterior para andar, ficava sozinha enquanto eu me ausentava para trabalhar. Agora ganhou uma nova companhia.

Nos Picos da Europa

Com Ferrol a ficar para trás, a paisagem começa a mudar ao sairmos da Galiza. A entrada nas Astúrias faz-se com uma queda abrupta de 10 graus centígrados, com paisagem verdejante e montanhosa, com pastagens e vacas felizes. As Astúrias fazem-me recordar os nossos Açores, nomeadamente a ilha de São Miguel, com a sua importante exploração nos lacticínios bem como com a nebulosidade baixa e frequentes precipitações.

Comemos quilómetros sem parar com o objectivo de chegarmos a tempo do almoço. Passámos Oviedo e Gijón em direcção ao extremo leste asturiano. Pouco depois da saída da auto-estrada, resolvemos parar em Unquera e Mollena para esticar as pernas. O ambiente apesar de bonito é demasiado comercial para nós. Muitas lojas de recuerdos e restaurantes. Não faz o nosso género esta concentração turística pelo que resolvemos arriscar comer alguma coisa no destino. Em todo este trajecto somos acompanhados pelo Rio Deva até à nossa chegada a Panes, uma pequena localidade com menos de 600 habitantes a 156 quilómetros de Oviedo, a capital do Principado das Astúrias.

Vista do quarto do hotel

As nossas espectativas quanto ao que aí vinha eram baixas, mas mal entrámos no hotel o nosso sentimento mudou completamente. Com o check-in feito, verifico que fiquei com o melhor quarto do hotel, com dimensões generosas e com uma agradável vista para o Rio Deva bem como para o jardim do hotel. Somos informados que podemos almoçar no restaurante do hotel, e, finalmente, quem diria, aqui no meio das montanhas mas ainda perto do mar, encontrámos os chocos e o marisco que procurámos na Corunha e a preços mais convidativos! Tirámos a barriga de misérias e pela primeira vez temos alguém que por sua própria iniciativa tenta falar português connosco. Fomos tão bem tratados que decidimos realizar todas as refeições no hotel.

Como não ficámos muitos dias, o tempo foi aproveitado o melhor possível, a acompanhar a estrada com o Rio Deva sempre ao lado, por entre desfiladeiros e até localidades remotas e pitorescas totalmente off-the-grid. A paisagem parece alpina, o sossego e a pouca afluência turística agradou-me dando aos locais uma maior autenticidade. Resolvemos regressar cedo ao hotel para um bom banho, um período de descanso e preparação para o jantar. Após o jantar demos uma volta a pé por Panes e usufruímos da sua área recreativa com bastantes informações acerca da fauna e flora existente.

Localidade remota nos Picos da Europa

O pequeno-almoço foi satisfatório, dando-nos a energia necessária para nos fazermos à estrada, ultrapassando novamente o Desfiladeiro de La Hermida até Potes onde virámos à direita. Essa estrada é sem saída e far-nos-ia passar pelo Mosteiro de Santo Toribio de Liébana. O nosso destino no entanto foi Fuente Dé, nascente do Rio Deva, com um teleférico paisagístico incrível. O movimento aqui é grande, com parques cheios de automóveis e autocarros de turismo. Tirámos o dia para visitar outras localidades remotas e tomar estradas que não vêm no mapa à procura do desconhecido.

Depois de uma bela noite de sono e um agradável pequeno-almoço realizámos o nosso check-out. Decidimos regressar a Portugal por um trajecto diferente pelo que saímos pelo sul apreciando a paisagem de montanha de Castela e Leão. A nossa intenção foi parar em Riaño para almoçarmos e descansarmos um pouco. Não estávamos à espera de mais uma surpresa paisagística.

Paisagem de Riaño

Este reservatório de água de Riaño é embelezado com reflexos montanhosos na sua superfície de 2230 ha e pertence à bacia hidrográfica do Douro. O almoço, como seria de esperar, não nos entusiasmou. Gostei muito de fazer a estrada desde Riaño até aos arredores da cidade de Leão sempre acompanhados pelo Rio Esla, um dos afluentes do Rio Douro. A paisagem é árida com segmentos de plantações florestais numa tentativa de contrariar a desertificação. É nos arredores da cidade de Leão que entramos na auto-estrada e quando me apercebo que nos estamos a aproximar de Puebla de Sanabria não perco tempo em sugerir a nossa saída para a localidade já com intenções de jantar em Bragança. Depois de uma volta a pé e de mais alguns recuerdos, fiz questão de visitar a estação ferroviária de Puebla de Sanabria. É aqui que o comboio de alta velocidade espanhol vai ter paragem, servindo inclusivamente a população de Bragança, que ficará mais próxima de Madrid do que de Lisboa.

Com a nossa entrada em território nacional e com o relógio a andar, apressamo-nos até Gimonde onde comemos um belo repasto à portuguesa! Que saudades da nossa terra e da nossa portugalidade!

Em Ferrol

Vindos da Corunha e chegados a Ferrol ainda cedo, permitiu-nos começar por dar uma volta pela cidade. A Corunha – ao contrário de Ferrol – é uma cidade com vida, cosmopolita, em constante disputa ao nível da dimensão e importância com a cidade de Vigo. É a rivalidade mais feroz da Galiza! Já Ferrol, uma cidade banhada pela ria com o mesmo nome, é virada para a indústria naval, que com a crise entrou em constante declínio. Esta dependência exclusiva da indústria naval tem conduzido à sua morte lenta. A população começou a deslocar-se para o concelho vizinho de Narón, bastante mais industrializado e com construções mais recentes. O centro de Ferrol deixa à vista de todos uma crise que se estendeu ao mercado imobiliário, a prédios em ruínas, ao abandono, à decadência. Decidimos voltar de tarde para ver se o ambiente melhorava, mas a ausência de pessoas na rua em contraste com o que se passou na Corunha – onde a vivacidade está patente e fervilhante – levou-me a tomar a dianteira do nosso destino e a afastar-nos da cidade.

Almoçar em Espanha para nós é um problema. Gostamos de comer cedo, e os horários que praticamos em Portugal são diferentes em Espanha. Apesar de até agora as refeições nos deixarem muito a desejar, decidimos comer perto do nosso alojamento nos arredores de Narón. Os galegos conhecem-nos, sabem que mantemos o hábito de comer muito mais cedo do que eles, e neste caso, prontificaram-se a abrir mais cedo a cozinha para nos servirem umas barriguinhas de porco e cerveja da boa. Perto de nós encontravam-se umas instalações industriais cujo nome da empresa é Megasa. O nome dizia-me alguma coisa, mas só depois me ocorreu que foram estes senhores que compraram a nossa Siderurgia Nacional. Num passeio a pé, já ao início da noite pela marginal junto à Ria de Ferrol, apercebi-me quão barulhenta é aquela unidade. Intrigou-me que só se dê pela actividade daquela empresa naquele local e não do lado oposto onde se situa uma zona residencial, onde também estávamos alojados. São as maravilhas da acústica que aqui são muito bem aplicadas!

Não partimos sem antes ter ido ao Farol do Cabo Prior. Sempre que posso visito faróis, uma das construções que mais gosto em concordância com o fascínio que o mar e a actividade da navegação me transmite. A envolvência do farol está marcada pelas ruínas do conjunto de baterias militares do Cabo Prior. Este conjunto de baterias foi um dos que foi construído na região para dissuadir a aproximação de navios de guerra, uma vez que grande parte da armada espanhola se encontrava ancorada em Ferrol. Do farol às baterias, e sempre em pano de fundo, vemos a maravilhosa Praia de Santa Comba. Esta apresentaria umas águas bem gélidas e cristalinas, acompanhadas de um desagradável vento, factores que se esquecem rapidamente com o valor paisagístico.

Praia de Santa Comba

Na Corunha

Com tudo preparado e já na bagageira do carro, a noite que antecede uma viagem é sempre complicada para mim. A ansiedade impede-me de adormecer em condições e ter uma noite descansada. No entanto, não é isso que me impede de acordar primeiro que o galo e cantar de alvorada! Fiquei de ir ter com uns amigos a Esposende para juntos irmos em direcção ao extremo norte da Galiza.

Ainda relativamente cedo, alguns quilómetros já dentro do território espanhol, eis que surgem as primeiras peaxes. A dúvida começou por ser se a Via Verde funcionava. Non pasa, non pasa! – diziam através do intercomunicador. A informação não era clara quanto ao motivo, mas o dispositivo apitava constantemente. A descontracção era tal que o assunto só nos provocava riso e frases como: "Eles não nos querem cá, estamos lixados". Fiquem pois a saber que a Via Verde pasa mas não com os dispositivos antigos. Se pretendem andar por Espanha e usar a Via Verde, troquem o dispositivo da vossa viatura para um mais recente. É preciso também activar o serviço gratuitamente através da vossa área de cliente ou numa das lojas da Via Verde. No meu carro, que tinha deixado em Portugal, apesar de ter o dispositivo mais recente ainda não tinha o serviço activo, pelo que o activei enquanto seguíamos viagem pois fazia já intenções de regressar noutras ocasiões.

A aproximação à Corunha fez-se, e mal saímos da auto-estrada verificámos que a cidade tem umas dimensões generosas. Fazíamos intenções de parar para os lados do estádio do Deportivo da Coruña, mas enquanto permanecíamos no trânsito corunhês surge-nos na frente da viatura uma jovem que nos ultrapassou de bicicleta. Parecia vinda de um campo holandês cheio de tulipas, de bicicleta com cesta à frente, com um vestido florido, que ao sabor do vento cantábrico o ergue pelo ar e nos mostra duas belas pernas e um rabo generoso. A perplexidade não nos permitiu sequer ter a iniciativa de fotografar o momento. É que a jovem não se mostrou nada incomodada, e sabe-se lá como, o vestido prendeu-se ao elástico das cuequinhas, mantendo aquela visão que nos cegou do resto da cidade.

Chegados ao destino, e após escolhermos restaurante que prometia a comida do mar que ansiámos toda a viagem, o meu amigo puxa pelos galões e pelo seu castelhano para pedir chocos. Tinha ouvido que aquilo é que era bom… Pois era, mas o galego depressa nos diz que non hai choco. Já não havia nada a fazer. Pedes polvo e chamas-lhe choco para enganar o cérebro – disse-lhe eu. O funcionário afastou-se para realizar os nossos pedidos enquanto o meu amigo desiludido lá ia dizendo que non hai choco, e eu respondia com non pasa, non pasa e outro concluía: "bem vos disse que eles não nos querem cá!"

Saímos do restaurante insatisfeitos e com a carteira mais leve, valeu-nos os gelados que se vendiam junto ao Estádio Municipal de Riazor. A frente marítima da cidade é toda ela muito agradável com uma excelente praia urbana. Os edifícios revelam uma cidade com história mas muito bem arranjadinha. É na Corunha que se encontram os arquivos do Reino da Galiza e muito do que terá sido a nossa cidade de Braga enquanto capital do reino. Depois de um pequeno passeio a pé – e sem vermos novamente a menina da bicicleta – lá seguimos rumo a Ferrol.

Quando organizo viagens

Sempre que o assunto se prende com a realização de uma viagem, a pessoa a quem amigos e familiares encubem de realizar o programa, o guia e o roteiro de toda a jornada, sou eu. Isso dá-me trabalho, também satisfação porque viajar é das coisas que mais gosto de fazer, mas acima de tudo, dá-me uma enorme liberdade de fazer as coisas ao meu gosto. Nunca me saí mal. Mas também, cria em mim um sentido crítico quando sou conduzido pela organização dos outros, em que penso no que faria de diferente.

Na elaboração deste processo tenho sempre em atenção o tipo de pessoas que irão viajar comigo. É preciso olhar para as idades e para a capacidade física dos viajantes. O meu planeamento é feito de forma muito disciplinada. Há horários para tudo e obrigo ao cumprimento desses horários para que o programa atinja todas as suas metas e não fique nada por realizar. Aqui, está um dos pontos mais complicados no planeamento. A elaboração de horários obriga-me a calcular e a estudar distâncias entre os locais de visita e dificuldades que possam surgir. A minha precisão vai ao ponto do local mais apropriado para estacionar o carro. Cumprindo tudo com disciplina, é só chegar aos locais e realizar tudo de forma mais despreocupada, com toda a informação já disponível num roteiro que faço questão de imprimir e manter connosco durante a jornada. Não se perde tempo a procurar nada. Até mapas elaboro…

Quando programei uma viagem aos Açores surgiu a hipótese de se visitar a ilha de São Miguel mais a fundo, ou, fazer tudo a correr e ainda dar o salto para uma segunda ilha. Apesar do meu planeamento incluir horários, eu elaboro-os de modo a que não andemos a correr. Mas também sei, que se em Novembro coloco o meu grupo dentro de uma poça de água quente logo no primeiro dia, arruinaria todo o roteiro programado por mim, pois não iriam querer outra coisa, mesmo sem saberem o que haveria para lá disso. Então é preciso jogar até com estas coisas. Como seria de esperar, não quiseram outra coisa todo o dia, ao ponto de anoitecer e nós ainda dentro daquelas caldas aquecidas pela natureza. Se não colocasse esta actividade para o último dia, saberia que iriam pedir para realizar um segundo dia e perder-se-ia a visita a pelo menos metade da ilha.

No compromisso de elaborar um programa de viagem torno-me o líder de um grupo. Isso implica que seja também eu a tratar de todas as passagens aéreas, bilhetes para entrada em monumentos e espectáculos, mas não só. Quando fui com um grupo diferente ao norte de Itália não tive de me preocupar com nada. Não fui eu que planeei, pelo que só tinha de me deixar ir ao sabor do vento. Nessa viagem achei que perdemos tempo demais em Milão, tempo a menos em Verona, e ausência completa de tempo em Veneza. A ida aos lagos do norte foi uma boa iniciativa, mas com grande desorganização. Regressei com aquela sensação de que se perdeu uma oportunidade de ver mais. No entanto, puxei esta minha viagem para vos dar conta de um contratempo que não pode acontecer. Quando em Verona regressámos ao carro ninguém sabia do talão para pagar o estacionamento. Foi embaraçoso e obrigou ao grupo andar a vasculhar tudo. Vimo-nos obrigados a pagar a taxa máxima para poder sair com o carro. A pessoa que organiza é a mesma que tem de tomar sentido nestas coisas e guardar tudo o que determine o acesso a locais, sejam bilhetes culturais ou talões de parques de estacionamento. Não é a mesma coisa, quando não és tu a organizar – disseram-me à chegada a Portugal.

A eliminação de plásticos de utilização única

Em certa medida e no contexto global os europeus têm sido exemplo em variadas matérias que revelam maior sensatez em assuntos como a solidariedade entre os povos – sendo os maiores contribuidores a nível global, nomeadamente em recursos financeiros – como em assuntos relacionados com a ecologia.

Enche-me de orgulho decisões como a proibição em toda a União Europeia da venda de produtos de plástico descartável e de utilização única que ocorrerá já a partir do próximo ano. É um passo importante, mas insuficiente, dado que se aponta apenas para 2030 a exigência de 30% de material reciclado nas garrafas de plástico. O plástico tem de ser descontinuado. Não faz sentido que daqui a uma década ainda se mantenham garrafas com 70% de material plástico.

Em Portugal, o compromisso da eliminação dos plásticos de utilização única já tinha sido assumido em Fevereiro. Com uma meta mais ambiciosa, o Governo português comprometeu-se com a eliminação destes produtos até ao segundo semestre de 2020. Como seria de esperar, já nos encontramos no segundo semestre e a meta sem ser cumprida. Tudo continua igual e não há quem puxe o assunto para a ordem do dia.

Dentro deste contexto da eliminação dos plásticos, encontra-se já a ser feito um esforço por parte da indústria em relação às cápsulas de café. No mercado começam a surgir ofertas em que o café se encontra embutido em cápsulas feitas a partir de polímeros biodegradáveis e seladas hermeticamente. A ideia é que estas cápsulas possam seguir para o lixo orgânico sem qualquer problema, voltando à natureza de forma limpa e sustentável. Ao que parece, as mesmas podem até ser feitas com o aproveitamento das cascas dos grãos de café, que formam um bioplástico, e que até pode ser usado como adubo.

O exemplo das cápsulas de café vem provar que o aperto da legislação em prol do meio ambiente obriga a indústria a reformular-se. Está na altura de avançar também para outros campos, como seja o… das máscaras descartáveis!

A televisão gratuita

É certo que os conteúdos na internet têm ganho importância, mas para a realidade do nosso país, a televisão neste momento tem tanta importância como em tempos a rádio já teve. A companhia, o entretenimento e o acesso à informação é por muitos recebido através da televisão gratuita.

Em Portugal, e muito devido à desajeitada entrada em funcionamento da TDT – Televisão Digital Terrestre, a televisão paga ganhou vigor tornando-se socialmente num básico comparável ao serviço de água ou electricidade. É errado! O serviço básico é mesmo a televisão gratuita, e é esse serviço que deveria ser disseminado e promovido, tanto no seu acesso como também na exigência da qualidade dos conteúdos.

Vergonhosamente todo e qualquer processo para o desenvolvimento e dinamização da TDT resulta em caminhos morosos. Chega até a pairar no ar a existência de alegados interesses em benefício da televisão paga. Isso explica a complicação que tem sido a entrada de novos canais nesta plataforma e os problemas na cobertura da rede de emissores.

A TDT em Portugal entrou em funcionamento com emissões regulares a 29 de Abril de 2009, com os já existentes canais da emissão analógica (4 canais nacionais e 2 canais autonómicos). Na prática nada mudou no que aos conteúdos dizia respeito. Foi preciso esperar até 1 de Dezembro de 2016 para a entrada da RTP3 e da RTP Memória no serviço gratuito da TDT. Não houve grande divulgação (ou interesse) em promover a entrada destes novos canais e como deveriam os consumidores proceder para os poderem receber. Basicamente o que deveria ser feito é o que agora se propõe com a alteração das frequências na TDT: uma nova sintonização nos televisores. O processo é simples, mas quando o realizo em casa de pessoas que apenas recebem os quatro canais generalistas, é com surpresa que se deparam com o aparecimento de novos canais. É por este motivo, e porque muita gente não o sabe, quando se virem obrigados a sintonizar novamente a TDT surgirão os dois “novos” canais da RTP. Julgo que isso notar-se-á até nas medições das audiências. Não deixam de ser mais duas alternativas a quem pouco tem para escolher.

Com a digitalização e compressão do sinal é possível em cada multiplex agregar vários canais. Como os canais na actual oferta não são transmitidos em alta definição, há ainda espaço para mais dois canais privados que inicialmente se determinou que seriam temáticos: um informativo e o outro desportivo. O processo entretanto – como de costume – ficou em banho-maria e neste momento encontra-se parado. Nada que surpreenda…

Não sou apologista de uma oferta muito alargada de canais. Tenho acesso numa das minhas casas à TDT espanhola e, diga-se, a maioria dos canais não acrescenta valor. Pelo que, no caso português, sou apologista que no mínimo se potencie toda a capacidade do multiplex gratuito de forma a não só reduzir os custos da operação, como também por outro lado, favorecer o aumento da diversidade de conteúdos.

Só acontece aos outros

Acordo e vou à varanda. A noite foi de bom sono e inspira-me a respirar fundo e a contemplar a paisagem de montanha. Há ainda uma neblina que rapidamente se dissiparia enquanto o padeiro passa. Desço para preparar o pequeno-almoço espalhando o aroma a café que se esfrega por aquelas paredes em pedra. Pensando já nas necessidades para o almoço, e apesar de no dia anterior ter ido a Espanha fazer as compras da semana, aquilo que ficou esquecido é colmatado na mercearia da aldeia, que apesar de ter de tudo um pouco, a variedade é pouca, e os preços substancialmente mais elevados. No entanto, agrada-me a existência de uma mercearia nas proximidades e sou frequentador assíduo para dar uma pequena ajuda ao negócio.

A entrada faz-se pelo lado do café e como de costume sou o único que se apresenta de máscara. Ali, o estranho sou eu, porque sou de fora, porque uso uma máscara. Olham-me com um ar como se eu me exibisse, como se me colocasse num patamar superior, como se me fizesse de importante. A dona, que me atende sempre com um sorriso e simpatia, bem que colocou os avisos para a obrigatoriedade do uso da máscara e do distanciamento. Inicialmente ela própria cumpria, agora já não. Já fui cliente do seu café, mas outras vezes tal como esta, encontra-se cheio, e ninguém se apresenta com máscara ou cumpre sequer o distanciamento que se exige. Limito-me a entrar rapidamente para a mercearia onde raramente me cruzo com alguém, sirvo-me, e saio com a mesma pressa com que entrei.

O isolamento rural está a dar uma falsa sensação de segurança a estas pessoas. Ai se o bicho pega! Aí, foram os de fora que o trouxeram, foram os de fora que não fizeram cuidado. Já por isso, faço questão que me vejam e que sou o único que ali entra de máscara. Depois não digam que…

Os idosos são apenas o lado visível da pandemia

As notícias de surtos de Covid-19 nos lares têm estado na ordem do dia. Porquê? Provavelmente porque os sintomas da doença dão-se de forma mais exponencial na população idosa, e como surgem os sintomas, tornam-se o lado visível da disseminação. Há lares em que nenhum idoso apresenta sintomas, no entanto o surto é detectado. Isso deve-se ao facto da população idosa estar muito dependente dos hospitais, seja por quedas, doenças crónicas ou intervenções cirúrgicas. Não apresentando sintomas mas necessitando dos serviços hospitalares, são necessariamente submetidos ao teste, e o que anteriormente seria uma disseminação silenciosa, torna-se novamente visível.

A doença não está a atingir apenas os idosos. Os idosos institucionalizados, devido ao seu confinamento em lares, convívio dentro da instituição e maior necessidade de assistência hospitalar, tornam-se o semáforo pandémico resultado dessas circunstâncias.

Do mesmo modo, as crianças e jovens confinados diariamente em recintos escolares e o convívio entre eles, originarão novos surtos, aumentarão a disseminação do vírus, mas não serão o factor de maior visibilidade numa primeira fase porque se tratam de uma fatia da população que tem menor probabilidade de desenvolver sintomas e não está dependente de grandes cuidados médicos, não estando por isso sujeitos à testagem em ambiente hospitalar o que tornaria tudo mais visível. A abertura do novo ano escolar tornará, no entanto, tudo ainda mais visível, não numa primeira fase, mas sim numa segunda em que os estudantes serão mais um impulso à disseminação, através do contacto com familiares e amigos mais susceptíveis a desenvolverem sintomas. E quando surgirem essas pessoas com sintomas, verificar-se-á que na origem das cadeias de transmissão está uma população muito mais jovem, o lado invisível da disseminação do vírus.

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