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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Dos almoços mais importantes

O acordar foi com a tranquilidade que se exigia todos os dias. A ida à varanda revela ainda a geada nos campos e a bruma que ainda não desapareceu do circuito do rio. Somos uns privilegiados! Podíamos deixar-nos estar "na nossa". Mas, também sentimos o dever e o respeito por aqueles que nos tratam e servem bem sempre que visitamos a sua casa. O almoço de hoje é mais importante que nos outros dias. O almoço de hoje contribui para que uma porta continue aberta, para empregos, e - não menos importante - para nosso prazer. Hoje, almoçar cedo, é mais do que um cuidado ou uma delicadeza. É respeito pelo trabalho daqueles que sempre nos receberam bem e nos serviram melhor ainda. É uma responsabilidade social dos privilegiados que ainda podem pagar uma refeição num restaurante, aliviando a corda no pescoço daqueles que profissionalmente se dedicam a cada refeição que fazemos fora. Podíamos encomendar e comer em casa. Mas ao meio-dia contribuir para o movimento de um restaurante, ajudará muito mais psicologicamente aquelas pessoas a enfrentarem esta intempérie. A estarem ali para nós e nós para eles.

Confinamento de luxo

Finalmente de regresso à aldeia, onde o meu olhar acaricia as montanhas e o recolher obrigatório se faz a apanhar quivis. Neste sossego a rua é nossa e o sol brilha sem pitada de nuvens no céu. Aqui vive-se a pandemia do silêncio, onde nos ouvimos melhor, onde o limite da nossa visão nos eleva aos cumes onde giram as eólicas, e os finais de tarde se fazem acompanhar da bruma que surge do rio enquanto cai a noite.

Heranças pandémicas em ambiente hospitalar

Decorria o ano de 2009 quando surgiu a pandemia da gripe A, altura em que eu me encontrava a trabalhar num hospital e onde pude constatar toda a adaptação que foi necessária, desde a informação ao público sobre a etiqueta respiratória até à multiplicação dos dispensadores com desinfectante para as mãos. Nessa altura esse foi o foco com grandes campanhas de informação para sensibilizar a população. O uso de máscara estava apenas aconselhado a doentes, e talvez tenha sido essa a experiência que influenciou as políticas da Organização Mundial de Saúde e da nossa Direcção-Geral da Saúde ao não aconselharem inicialmente o uso massivo da máscara na pandemia que agora decorre. Por aquela altura, o uso da máscara foi no entanto vulgarizado pelo menos no México, onde se julga terem ocorrido os primeiros casos.

Também nessa época alertava-se para o aparecimento anormal de pneumonias, e com isso desenvolveu-se uma técnica que se designa de ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorporal), tratamento para doentes críticos com falência cardíaca ou pulmonar potencialmente reversível, quando todas as outras medidas de suporte orgânico artificial falharam. Em Portugal foi feito um grande investimento nesta técnica de suporte vital extracorporal, existindo três hospitais equipados para tal, dois em Lisboa e um no Porto. É no entanto, uma técnica de tratamento complexa, de alto risco e com custos elevados, que exige uma equipa multidisciplinar e multiprofissional diferenciada com capacidade de resposta imediata 24/7.

Com isto, em plena pandemia da covid-19, podemos dizer que a etiqueta respiratória e a desinfecção das mãos são ensinamentos com que estas gerações já se depararam há onze anos atrás a uma escala mais reduzida. Ao nível hospitalar, as três unidades de ECMO são uma herança desse tempo que se revelam agora muito úteis também para esta pandemia.

O balanço que aqui faço foi inspirado numa nova técnica que hoje se encontra a ser desenvolvida no Porto e que tem grande aplicação em Itália com resultados bastante positivos. Tratam-se dos "capacetes respiratórios". O que me agrada mais nesta técnica é o facto de não ser invasiva. O dispositivo fornece oxigénio em altas concentrações e evita que muitos doentes tenham de ser intubados. E esta pode bem ser a herança que a covid-19 deixará nos nossos hospitais para futuros tratamentos, tal como a ECMO, que entrou em Portugal durante a pandemia da gripe A.

Velhos caminhos

Velho acesso a um campo

Saudades da aldeia e dos antigos acessos aos campos, dos seus velhos caminhos e da sua simplicidade, por onde passaram carroças, pessoas e, durante a noite, cruzam-se as raposas, os javalis e os corços. Permanecem esquecidos e são um património incalculável das anteriores gerações.

Miasma pestilencial

Foi entre os anos de 1347 e 1351 que a Peste Negra atingiu o seu pico na Europa. No entanto, só após três séculos é que alguns médicos começaram a surgir com máscara e fatos de protecção. O equipamento era feito inteiramente em couro de cabra marroquino e incluía calças, casaco longo, chapéu, luvas e uma máscara que cobria todo o rosto semelhante a um corvo. A máscara possuía oculares de cristal e um longo bico com perfume ou ervas aromáticas para impedir a inalação de ar contaminado vindo do paciente. É aqui que o paradigma do contágio se altera. Do simples contágio aleatório pelo ar, passa-se a focar a origem da transmissão a partir dos pacientes. Este reconhecimento da origem de uma cadeia de transmissão foi determinante numa época em que os cuidados de saúde eram miseráveis.

Há mais de cem anos atrás, surgiu a Pneumónica. Nessa altura, com a sobrelotação dos hospitais desencadearam-se superinfecções bacterianas. O veículo para a propagação terá sido o movimento de tropas durante a Primeira Guerra Mundial. A segunda onda foi maior e consequentemente a mais mortífera. Surgiram as primeiras cercas sanitárias e o uso da máscara em tecido começou a ser mais generalizada e vulgarizada.

A humanidade já assistiu a este filme. As medidas que têm sido tomadas pelos governantes não têm sido de modo algum eficazes. São para mim meros paliativos. Eu acredito que esta falta de resultados tem muito mais a ver com o uso de métodos arcaicos, como os confinamentos ou as cercas sanitárias, que deviam estar já completamente ultrapassados. Métodos que economicamente não são passiveis de adaptação e por isso, nesta pandemia – tal como nas anteriores – assistiremos a convulsões sociais e a catástrofes económicas. Procurámos desenvolver a economia sem a proteger. Foi preciso surgir uma nova pandemia em larga escala para irmos à história encontrar crises equiparáveis.

Quando surge um vírus que nos demonstra que afinal continuamos à mercê e que sempre estaremos caímos na realidade, que afinal continuamos frágeis como sempre estivemos, que esquecemos que sempre existirão vírus, novas doenças, que a nossa única protecção será o desenvolvimento cientifico e medicinal, que a estabilidade e a "vida normal" dependerá tão só do engenho humano em criar uma inovação que nos tire de onde nos encontramos e que acabe com este miasma pestilencial, até que venha o próximo.

Cogumelos

Cogumelos junto a um velho pé de videira

Os cogumelos são surpresas criadas pelo Outono que surgem de forma aleatória e surpreendente, com diferentes formas, cores e tamanhos, com inúmeras espécies, para nos chamar à atenção do pormenor e para nos fazer olhar para recantos húmidos que de outra forma nos passaríam despercebidos. É quando a natureza chama por nós e nos brinda com beleza. É um espectáculo que se apresenta todos os anos e que não se paga bilhete.

Estes foram os primeiros a surgir no meu quintal ainda não fez um mês, alimentando-se de um velho pé de videira.

Telhados de vidro

Pela Europa tem sido uma constante a referência ao modo como Donald Trump tem gerido o combate à pandemia nos Estados Unidos da América. Ainda ontem à noite vi essa referência por parte de um comentador no 360 da RTP3.

Julgo que chegámos a um limite. Continuar a falar do modo como se gere a pandemia no outro lado do Atlântico começa a ser de um moralismo emproado já a roçar o ridículo. A Europa, no seu conjunto, acabou há dias de ultrapassar os EUA em número de infectados e continuamos a ser mais exigentes com uma administração que não é a nossa. Tenho para mim, que o tempo que se continua a ocupar com Donald Trump nesta matéria, só visa desviar a nossa atenção de sermos exigentes com quem realmente devemos.

Análise às eleições nos EUA

Apesar da exaustão que o apuramento dos resultados está a causar, não há como negar que as eleições americanas são o facto político mais importante a ocorrer por estes dias no mundo. Os resultados trazem consequências para a segurança mundial – risco e perigo de guerra, bem como para as alianças que nos afectam directamente. Acrescente-se consequências também para o cumprimento de tratados internacionais, os esforços relativos às alterações climáticas e, muito importante, a prevalência da democracia.

O último ponto é especialmente importante, porque não falo apenas na manutenção da democracia no outro lado do Atlântico, mas também da réplica que daí costuma advir, com enorme poder replicativo em países que olham para o exemplo de Trump. Isto implicará uma degradação significativa da verdade e do valor dos factos.

O caminho traçado pelos resultados que vão surgindo demonstra uma profunda divisão nos EUA, com valores tangenciais, praticamente residuais no voto popular, com uma diferença de décimas na Geórgia, e diferenças percentuais numa média de 1 a 2% em diversos outros estados. Esta proximidade não dará uma vitória clara no voto popular e põe em evidência a imensa "América" dividida. O presidente que daqui sair não terá um país com ele. Pelo contrário, terá meio país que poderá não o considerar legítimo para o cargo. E isto é especialmente perigoso pela cada vez maior evidência de fanatismos. Se Biden vencer não terá paz. Terá como missão maior ser o guardião do que restará da democracia americana. Não me parece, no entanto, que tenha a vitalidade suficiente para tal. Será por isso muito importante o apoio de retaguarda para vingar.

No meio deste “arrastamento na lama” há dois pontos positivos para a democracia: nunca houve tanta gente a mobilizar-se para votar e o processo eleitoral decorreu sem que tivessem ocorrido confrontos significativos. No entanto, acredito que as perturbações só agora irão começar a surgir. Não vai ser fácil tirar Trump do caminho porque um dos itens básicos da democracia é saber aceitar a derrota e Trump não é propriamente o melhor seguidor de regras democráticas. É possível que numa primeira fase se recorra aos tribunais para atrasar o processo, mas este posicionamento leva a modelos pré-democráticos de transição de poder, que sem a aceitação da derrota, se resolve a transição de forma mais violenta, nomeadamente com milícias e confrontos armados. Veja-se a venda de armas, que disparou 95%.

Em todo o processo eleitoral americano não se viu referência a qualquer política externa. Uma superpotência que esteve à frente na liderança mundial e que deixa de dar importância à política externa está a dar um passo atrás e a deixar livre um lugar que será ocupado por outros. É um erro.

A comunicação e as novas medidas pandémicas

Quando estive envolvido na estrutura da organização de jogos da Primeira Liga de futebol pude verificar a importância que se dá à gestão e comunicação com as massas. É outro jogo táctico que quem frequenta os estádios não imagina. Fiquei bastante surpreendido, pela positiva, da capacidade da nossa Polícia de Segurança Pública, da inteligência que possuímos nesta matéria.

É por saber do potencial que possuímos que menos compreendo o modo como o nosso Governo se tem dirigido às pessoas. Vivemos tempos inéditos, históricos, mas acima de tudo exigentes. Por isso mesmo, não aceito o modo amador como está a ser feita a comunicação à população, aparentemente sem que se recorra a quem entende como a mesma deve ser feita.

Em cada excepção que se cria, em cada argumento que se dá, a complexidade multiplica-se. Tem de haver clareza e uniformidade. Quando o Governo mostra um mapa em que coloca 70% da população com determinadas medidas e exclui apenas 30% da população, está a criar 100% de confusão. Esta realidade em que se coloca as pessoas a necessitarem de verificar se o seu município se inclui ou não nas medidas complica numa altura em que tudo deve ser simplificado. A exclusão pouco significativa de quem não é abrangido pelas medidas pedia que as regras fossem generalizadas para maior cumprimento, uniformidade e êxito na implementação.

No que toca à medida que impede as pessoas de circularem para fora dos seus municípios, é ridícula, porque os efeitos no combate à disseminação do vírus são pouco significativos. Leva até a situações caricatas, em que alguém de Valença não pode passar para Monção, Vila Nova de Cerveira ou Paredes de Coura, mas já poderá passar a fronteira internacional e dirigir-se para Tui (Espanha).

A fraca comunicação, os frágeis argumentos e as contradições estão a dar aso à desconfiança, descrença e falta de credibilidade do Governo. Contribui ainda mais para a fadiga, para a revolta e para a desobediência. Pior, dá argumentos ao radicalismo.

Um livro e um podcast

Capa do livro "A ferrovia em Portugal: Passado, presente e futuro"

A ferrovia em Portugal: Passado, presente e futuro, é um livro de Francisco Furtado, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que nos faz andar para trás na cronologia ferroviária portuguesa. Faz um retracto – a meu ver – algo optimista dos avanços e recuos sucessivos na criação e manutenção da rede ferroviária nacional, mas depois, também é capaz de equilibrar quando aponta Portugal como sendo o único país da Europa com mais quilómetros de auto-estrada do que ferrovia. Com o enquadramento histórico feito, olha-se também para o futuro. O livro, de leitura rápida, está à venda por um preço bastante acessível, por pouco mais de três euros.

O podcast Sobre Carris, do Público, é mantido por Carlos Cipriano, Diogo Ferreira Nunes e Ruben Martins. Trata-se de um oásis para quem gosta do tema do caminho-de-ferro, e onde poderá ouvir a actualidade ferroviária esmiuçada, com realismo – ou cepticismo – próprio de quem todos estes anos acompanhou esta indústria e viu imensos projectos a ficar na gaveta enquanto paralelamente se abandonavam linhas e ramais importantíssimos para a coesão nacional.