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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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A casa e os galegos

Gosto muito de casas. Sou muito de estar em casa, no meu espaço, no meu conforto. Mas não gosto de qualquer casa. As casas, para mim, têm de ter carácter, personalidade e charme. As minhas casas são assim: rústicas, em pedra, com muita madeira, mas diferentes.

Recentemente adquiri uma casa bem perto da Galiza. Está enquadrada numa paisagem de montanha, muito em contacto com a natureza. O meu investimento aí foi a pensar na paz e na tranquilidade que lá se respira. A ideia não é ter luxos, mas antes ser um espaço de liberdade em comunhão com o meio envolvente. Tem tudo para proporcionar felicidade, com uma churrasqueira, quintal com árvores de fruto e horta, espaço para ferramentas e mobiliário de jardim e lazer. Tem uma paisagem incrível, panorâmica, com a Serra D’Arga em pano de fundo. Apresenta um céu despoluído de luz, o leitor que sabe o que isso é já está a imaginar a beleza nocturna daquele céu estrelado. Também imaginará o pôr-do-sol e o bem que ele ficaria dentro de uma moldura. Se eu tivesse sido obrigado ao confinamento pela pandemia, já tinha os meus planos para aqui dirigidos.

A proximidade com a Galiza despertou-me uma enorme curiosidade sobre os nossos vizinhos a norte. Surgiu-me um sentimento que se pode explicar como o encontro de um irmão que nem sabia que tinha. Quanto mais quis saber, mais me aguçava o interesse. Primeiro, a língua. Começa por soar a um espanhol estranho, mas, subitamente torna-se incrivelmente familiar, de tal forma que começa a soar a português. O galego tem um surgimento em comum com o português. Foi do galaico-português que derivaram estas línguas irmãs. Mas, podia limitar-se a isso, a falarmos línguas irmãs, só que não. A cultura e a gastronomia são muito semelhantes à nossa. E quem puxar atrás a fita cronológica deparar-se-á com a mesma realidade territorial. A fronteira galega já foi bem mais a sul, e a primeira das capitais do Reino da Galiza foi a cidade de Braga. Somos na realidade o mesmo povo, mas separado por uma fronteira.

Tenho imensa curiosidade em conhecer galegos. Na realidade, já lido com eles quando lá me desloco às compras. Mas o que quero mesmo é desenvolver amizades do outro lado da fronteira e tornar efectivo o reencontro da irmandade. Devia ser um dever de qualquer português e de qualquer galego. Felizmente que essa aproximação é posta em prática todos os dias com a população raiana, e de forma mais alargada através da televisão galega. Foi aliás através da televisão galega que ganhei a noção do interesse galego por nós, pela nossa música, pelo que somos. É aquele chamamento inconsciente sem que saibamos que afinal somos o mesmo.

Temos o hábito de chamar irmãos aos povos das ex-colónias e à generalidade dos nossos vizinhos espanhóis. Mas não há povo com semelhança e proximidade tão grande a nós como os galegos. São uma verdadeira descoberta!