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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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Análise às eleições nos EUA

Apesar da exaustão que o apuramento dos resultados está a causar, não há como negar que as eleições americanas são o facto político mais importante a ocorrer por estes dias no mundo. Os resultados trazem consequências para a segurança mundial – risco e perigo de guerra, bem como para as alianças que nos afectam directamente. Acrescente-se consequências também para o cumprimento de tratados internacionais, os esforços relativos às alterações climáticas e, muito importante, a prevalência da democracia.

O último ponto é especialmente importante, porque não falo apenas na manutenção da democracia no outro lado do Atlântico, mas também da réplica que daí costuma advir, com enorme poder replicativo em países que olham para o exemplo de Trump. Isto implicará uma degradação significativa da verdade e do valor dos factos.

O caminho traçado pelos resultados que vão surgindo demonstra uma profunda divisão nos EUA, com valores tangenciais, praticamente residuais no voto popular, com uma diferença de décimas na Geórgia, e diferenças percentuais numa média de 1 a 2% em diversos outros estados. Esta proximidade não dará uma vitória clara no voto popular e põe em evidência a imensa "América" dividida. O presidente que daqui sair não terá um país com ele. Pelo contrário, terá meio país que poderá não o considerar legítimo para o cargo. E isto é especialmente perigoso pela cada vez maior evidência de fanatismos. Se Biden vencer não terá paz. Terá como missão maior ser o guardião do que restará da democracia americana. Não me parece, no entanto, que tenha a vitalidade suficiente para tal. Será por isso muito importante o apoio de retaguarda para vingar.

No meio deste “arrastamento na lama” há dois pontos positivos para a democracia: nunca houve tanta gente a mobilizar-se para votar e o processo eleitoral decorreu sem que tivessem ocorrido confrontos significativos. No entanto, acredito que as perturbações só agora irão começar a surgir. Não vai ser fácil tirar Trump do caminho porque um dos itens básicos da democracia é saber aceitar a derrota e Trump não é propriamente o melhor seguidor de regras democráticas. É possível que numa primeira fase se recorra aos tribunais para atrasar o processo, mas este posicionamento leva a modelos pré-democráticos de transição de poder, que sem a aceitação da derrota, se resolve a transição de forma mais violenta, nomeadamente com milícias e confrontos armados. Veja-se a venda de armas, que disparou 95%.

Em todo o processo eleitoral americano não se viu referência a qualquer política externa. Uma superpotência que esteve à frente na liderança mundial e que deixa de dar importância à política externa está a dar um passo atrás e a deixar livre um lugar que será ocupado por outros. É um erro.