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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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Heranças pandémicas em ambiente hospitalar

Decorria o ano de 2009 quando surgiu a pandemia da gripe A, altura em que eu me encontrava a trabalhar num hospital e onde pude constatar toda a adaptação que foi necessária, desde a informação ao público sobre a etiqueta respiratória até à multiplicação dos dispensadores com desinfectante para as mãos. Nessa altura esse foi o foco com grandes campanhas de informação para sensibilizar a população. O uso de máscara estava apenas aconselhado a doentes, e talvez tenha sido essa a experiência que influenciou as políticas da Organização Mundial de Saúde e da nossa Direcção-Geral da Saúde ao não aconselharem inicialmente o uso massivo da máscara na pandemia que agora decorre. Por aquela altura, o uso da máscara foi no entanto vulgarizado pelo menos no México, onde se julga terem ocorrido os primeiros casos.

Também nessa época alertava-se para o aparecimento anormal de pneumonias, e com isso desenvolveu-se uma técnica que se designa de ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorporal), tratamento para doentes críticos com falência cardíaca ou pulmonar potencialmente reversível, quando todas as outras medidas de suporte orgânico artificial falharam. Em Portugal foi feito um grande investimento nesta técnica de suporte vital extracorporal, existindo três hospitais equipados para tal, dois em Lisboa e um no Porto. É no entanto, uma técnica de tratamento complexa, de alto risco e com custos elevados, que exige uma equipa multidisciplinar e multiprofissional diferenciada com capacidade de resposta imediata 24/7.

Com isto, em plena pandemia da covid-19, podemos dizer que a etiqueta respiratória e a desinfecção das mãos são ensinamentos com que estas gerações já se depararam há onze anos atrás a uma escala mais reduzida. Ao nível hospitalar, as três unidades de ECMO são uma herança desse tempo que se revelam agora muito úteis também para esta pandemia.

O balanço que aqui faço foi inspirado numa nova técnica que hoje se encontra a ser desenvolvida no Porto e que tem grande aplicação em Itália com resultados bastante positivos. Tratam-se dos "capacetes respiratórios". O que me agrada mais nesta técnica é o facto de não ser invasiva. O dispositivo fornece oxigénio em altas concentrações e evita que muitos doentes tenham de ser intubados. E esta pode bem ser a herança que a covid-19 deixará nos nossos hospitais para futuros tratamentos, tal como a ECMO, que entrou em Portugal durante a pandemia da gripe A.