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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Na Corunha

Com tudo preparado e já na bagageira do carro, a noite que antecede uma viagem é sempre complicada para mim. A ansiedade impede-me de adormecer em condições e ter uma noite descansada. No entanto, não é isso que me impede de acordar primeiro que o galo e cantar de alvorada! Fiquei de ir ter com uns amigos a Esposende para juntos irmos em direcção ao extremo norte da Galiza.

Ainda relativamente cedo, alguns quilómetros já dentro do território espanhol, eis que surgem as primeiras peaxes. A dúvida começou por ser se a Via Verde funcionava. Non pasa, non pasa! – diziam através do intercomunicador. A informação não era clara quanto ao motivo, mas o dispositivo apitava constantemente. A descontracção era tal que o assunto só nos provocava riso e frases como: "Eles não nos querem cá, estamos lixados". Fiquem pois a saber que a Via Verde pasa mas não com os dispositivos antigos. Se pretendem andar por Espanha e usar a Via Verde, troquem o dispositivo da vossa viatura para um mais recente. É preciso também activar o serviço gratuitamente através da vossa área de cliente ou numa das lojas da Via Verde. No meu carro, que tinha deixado em Portugal, apesar de ter o dispositivo mais recente ainda não tinha o serviço activo, pelo que o activei enquanto seguíamos viagem pois fazia já intenções de regressar noutras ocasiões.

A aproximação à Corunha fez-se, e mal saímos da auto-estrada verificámos que a cidade tem umas dimensões generosas. Fazíamos intenções de parar para os lados do estádio do Deportivo da Coruña, mas enquanto permanecíamos no trânsito corunhês surge-nos na frente da viatura uma jovem que nos ultrapassou de bicicleta. Parecia vinda de um campo holandês cheio de tulipas, de bicicleta com cesta à frente, com um vestido florido, que ao sabor do vento cantábrico o ergue pelo ar e nos mostra duas belas pernas e um rabo generoso. A perplexidade não nos permitiu sequer ter a iniciativa de fotografar o momento. É que a jovem não se mostrou nada incomodada, e sabe-se lá como, o vestido prendeu-se ao elástico das cuequinhas, mantendo aquela visão que nos cegou do resto da cidade.

Chegados ao destino, e após escolhermos restaurante que prometia a comida do mar que ansiámos toda a viagem, o meu amigo puxa pelos galões e pelo seu castelhano para pedir chocos. Tinha ouvido que aquilo é que era bom… Pois era, mas o galego depressa nos diz que non hai choco. Já não havia nada a fazer. Pedes polvo e chamas-lhe choco para enganar o cérebro – disse-lhe eu. O funcionário afastou-se para realizar os nossos pedidos enquanto o meu amigo desiludido lá ia dizendo que non hai choco, e eu respondia com non pasa, non pasa e outro concluía: "bem vos disse que eles não nos querem cá!"

Saímos do restaurante insatisfeitos e com a carteira mais leve, valeu-nos os gelados que se vendiam junto ao Estádio Municipal de Riazor. A frente marítima da cidade é toda ela muito agradável com uma excelente praia urbana. Os edifícios revelam uma cidade com história mas muito bem arranjadinha. É na Corunha que se encontram os arquivos do Reino da Galiza e muito do que terá sido a nossa cidade de Braga enquanto capital do reino. Depois de um pequeno passeio a pé – e sem vermos novamente a menina da bicicleta – lá seguimos rumo a Ferrol.