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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Não é civismo, é cagufa

Distanciamento social

A história dos portugueses se terem portado bem está muito mal contada. É certo que a fase do confinamento terá corrido muito bem, aparentando alto grau de civismo por parte da população. No entanto, e como apesar de ser um adepto do distanciamento social mesmo antes da pandemia, ninguém me convence de que a sociedade portuguesa é altamente civilizada. É aliás o distanciamento que nos dá uma imagem mais ampla dessa realidade. Para além disso, pede-se mais humildade uma vez que países como a Grécia mantêm até ao momento resultados esmagadoramente melhores que os nossos, já para não ampliar até exemplos em latitudes asiáticas.

O que aconteceu tem outro nome, e não é civismo. Diga-se antes, cagufa! Sim, o medo é que controlou as pessoas. Foram aquelas imagens que chegavam de Itália e de Espanha que alarmaram a população, fechando cada um no seu casulo. Poucos fizeram caso do que se estava a passar na China, mas a Espanha, caraças, essa é demasiado próxima de nós. Não vou esconder que a mim me assustou, não há como não assustar! Ver gente com aquelas vestimentas em cuidados intensivos, como se fossemos estar sujeitos a experiências científicas do mais invasivo que possa existir.

Eu tive a sorte de nunca parar, por isso, como sempre tive justificação para circular por motivos profissionais pude assistir todos os dias ao que se passava nas ruas. E nessa fase mais crítica todos os dias acordei de manhã como se fosse para a guerra. O meu posto de trabalho tornou-se na minha trincheira. Muito antes da empresa tomar providências, tomei eu as minhas medidas. Como tive acesso por portas e travessas a máscaras, no fim de Fevereiro comecei a surgir de máscara no meu posto de trabalho. Fui olhado como se fosse um animal exótico que ali aterrou. Foi preciso passar um mês para que após o surgimento de casos na empresa, surgissem finalmente decisões, que por força da obrigatoriedade a todos metesse uma máscara na focinheira. E é aqui que queria chegar, pois após a fase da cagufa só a obrigatoriedade mantém as pessoas cumpridoras, porque afinal de contas, as pessoas não estão habituadas a pensar por si e a praticar aquilo a que se designa de responsabilidade individual. O típico português não é responsável nem tão pouco gosta de se dar ao trabalho de pensar. É mais fácil apontar o dedo ao Governo, ao Estado, às instituições como a Organização Mundial de Saúde ou a Direção-Geral da Saúde quando alguma coisa corre mal, do que tomar cada um as suas próprias providências para se proteger a si próprio e os outros.

A fase do dito confinamento terminou e com ela foi-se a cagufa. Como o medo é um sentimento transitório e temporário, e como o animal humano tem grande capacidade de adaptação, já convive bem com a presença do vírus, mesmo com a chegada de imagens semelhantes às espanholas e italianas, mas desta feita com o epicentro pandémico voltado para os EUA e o Brasil, já longe, portanto. Exemplo disso tem sido o comportamento nos cafés, sem cumprimento de qualquer das normas. Aliás, durante o confinamento muitos dos cafés mantiveram-se a funcionar de forma clandestina com os clientes a entrarem pela "porta do cavalo", maioria deles em faixa etária de risco. Paralelamente a isso, nos meus passeios pedonais após o jantar, verifico a existência de imensos grupos de jovens que se comportam como se vivêssemos tempos normais. É curioso que inicialmente se andava a apontar o dedo aos idosos e agora se aponta aos jovens.

Neste momento estamos a voltar a números de novas infecções semelhantes a fases iniciais da pandemia. Há quem diga que estamos melhor preparados, mas sem o medo será muito mais complicado levar a população a entender que tem de ser responsável para o bem comum. Ainda para mais, quando socialmente estamos numa fase de individualismos e muito pouco de colectivismos. É o que denomino de conceito selfie.