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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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Nova aposta na ferrovia

Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030

Tinha eu apenas 5 anos quando foi encerrado o troço entre o Pocinho e Barca d'Alva. Ainda assim recordo-me das viagens a Bragança para visitar a minha família materna, que uma vez obrigou à paragem numa passagem de nível da Linha do Douro para que passasse um enorme comboio de mercadorias. A paragem era de tal forma prolongada que as pessoas optavam por desligar os motores dos automóveis, e saindo para fora destes, assistiam à passagem do longo comboio com inúmeros vagões. Apesar do tráfego ferroviário ter sido suspenso na Linha do Tua entre Mirandela e Bragança quando eu tinha 9 anos, não me consigo recordar do comboio em Bragança. Recordo-me sim das minhas primas fumarem às escondidas na plataforma ferroviária dos silos da extinta EPAC – Empresa Pública de Abastecimento de Cereais. Ao se atravessar a linha havia um café que vendia gelados de gelo em forma de stick para se chupar. Era assim que me compravam para não as denunciar. Numa dessas idas aos silos da EPAC decidi saltar para a linha já desactivada e fazer o seu trajecto a pé com o objectivo de ver onde ia dar. Passei por uma ponte metálica típica do que era comum se usar na ferrovia. Por baixo passava um rio de água cristalina visível entre as travessas de madeira. A paisagem era composta de campos agrícolas trabalhados e aldeias em pedra. Os carris já não existem há imensos anos, mas eu ainda andei em cima deles.

Já perdi a conta desde aí, após todas estas décadas passadas, das promessas de reactivações de linhas ferroviárias. O desinvestimento desde o Estado Novo foi gradual e sistemático. No caso de Bragança chegou-se a falar da existência de um lóbi rodoviário. Por isso, é com cepticismo que encaro o desenterrar do interesse pelo comboio por parte do Prof. António Costa e Silva, consultor do Governo para o plano estratégico Portugal 2020-2030. Apesar disso, é com uma esperança contida que lido com a vontade de tornar o comboio no principal meio de transporte do país.

Usar a ferrovia como meio para a recuperação económica do país parece-me uma boa ideia. Mas quando se constrói um caminho-de-ferro, projecta-se a longo prazo, o que por si só exige um amplo consenso na matéria e um comprometimento político alargado já que envolverá futuras legislaturas.

Depois do consenso político é de facto necessário apostar urgentemente na alta velocidade na ligação entre as cidades de Lisboa e do Porto. Em breve os voos com uma distância inferior a 1000 quilómetros serão proibidos na União Europeia por uma questão ambiental. Só o transporte ferroviário será a alternativa para ligar os dois maiores polos urbanos do país.

Para lá da alta velocidade, o plano volta a falar na ligação de todas as capitais de distrito à ferrovia. Este ponto será importantíssimo para reforçar a coesão nacional, no entanto, recorde-se que o argumento usado para o fecho de muitas das linhas foi a fraca afluência de passageiros, pelo que, poderá ser necessário atribuir o estatuto de "serviço público" tal como acontece presentemente com algumas rotas aéreas, nomeadamente entre a ilha da Madeira e a ilha de Porto Santo.

Outra questão prende-se com a bitola (distância entre carris), que em Portugal, já sem a "via estreita", é a bitola ibérica, também amplamente usada em Espanha. No entanto, este assunto é motivo de polémica quando se pretende alcançar a interoperabilidade com a restante Europa, que usa a bitola europeia. Apesar disso, existe tecnologia que permite a adaptação dos bogies (eixos) do material circulante de modo a que este se adapte à via sendo ela de que bitola for. O plano põe de parte a adaptação total das linhas para a bitola europeia com o argumento de que os custos são elevados. Os críticos apontam o dedo à construção das novas linhas com a bitola ibérica pois consideram que deviam já de raiz surgir com a bitola europeia a pensar nos comboios internacionais e na exportação de mercadorias. O Governo defende-se dizendo que as novas linhas já se encontram a ser construídas com travessas de bitola mista de modo a que no futuro apenas seja necessário a deslocação dos carris.

Fiz aqui apenas referência a um dos pontos em que se baseia o plano do Prof. António Costa e Silva. O plano é muito diversificado e serve apenas para a apresentação dos diversos caminhos que o Governo poderá optar para a retoma económica. Isto por si só já indicia o que se poderá esperar. Posto isto, acredito essencialmente no investimento da alta velocidade entre Lisboa e o Porto e na linha internacional com ligação ao porto de Sines. Outras novidades neste campo, já serão um extra.