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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Retrato pandémico

Tenho tido alguma renitência em puxar atrás um assunto que tanto desgaste tem causado nas nossas vivências. No entanto, sinto a necessidade de o fazer porque eu saí do que foi o padrão. Fui um dos que não parou, tendo por isso uma experiência diferente de quem se viu em confinamento.

Começo por falar da Organização Mundial da Saúde e da nossa Direção-Geral da Saúde. Estiveram a meu ver muito mal nas orientações. Foi no final de Fevereiro que tomei consciência do que aí vinha, e por isso tomei providências no sentido de conseguir protecção, pois fazia intenções de continuar a trabalhar, mas com responsabilidade. É aliás a falta de responsabilidade individual, de consciência e de inteligência que levam à necessidade de se confiar e colocar as nossas vidinhas nas mãos de organizações. É que assim é mais fácil culpar estas quando alguma coisa corre mal. Na verdade esteve mesmo para correr mal, não tivesse sido o medo que as imagens vindas de Espanha e de Itália causaram. Paralelamente a isso, as autoridades de saúde não só não aconselharam no momento devido o uso de máscaras como até desaconselharam com o argumento do mau uso, passando óbvio atestado de bovinidade à população. Eu, que obtive formação na área da segurança, sempre entendi que no enfrentamento de uma agressão desconhecida o sensato é agir com a maior das restrições, ganhando tempo, e depois sim, à medida que surge a informação e o conhecimento, então modela-se os níveis de segurança, ajustando-os à real necessidade. O Governo português tomou a meu ver relativamente tarde as providências, mas ainda assim a tempo de evitar o caos. No entanto, quando estamos a lidar com um vírus cujas evidências já apontavam para contágios através do ar, o uso de máscara é desaconselhado pelas autoridades de saúde. Isto para mim é matéria que devia levar ao apuramento de responsabilidades a quem tem o papel de aconselhar bem a população.

A globalização, que por um lado teve um papel disseminador da infecção, por outro lado poderia ter servido para nos fazer questionar qual o motivo que levava os asiáticos a usarem massivamente máscaras. Só agora se veio a saber que se deve à experiência que tiveram com a primeira versão do SARS-CoV. Costumo dizer que quanto mais facilitado é o acesso à informação, maior é a ignorância.

Numa altura em que as máscaras escasseavam obtive-as por portas e travessas, começando-as por usar logo no início de Março. A reacção dos meus colegas foi de estupefacção, de olhares incrédulos e de absoluta ignorância. Em todo o período pandémico os trabalhadores que não pararam estiveram abandonados, nomeadamente por parte dos sindicatos, da ACT, mas acima de tudo por parte das empresas que legalmente sempre tiveram a obrigação de fornecer os EPIs aos trabalhadores. Foi preciso passar um mês para que a empresa onde trabalho começasse a disponibilizar máscaras, viseiras, e adoptasse normas de protecção (marcações no chão, medição de temperatura corporal, limpeza de espaços comuns e disponibilização de pontos de desinfectante para as mãos), sendo ainda assim um dos melhores exemplos de que tenho conhecimento.

A nova realidade – que começou pelo uso de máscara – estendeu-se também à mudança dos hábitos de consumo. Deixei de frequentar supermercados de grandes dimensões e rendi-me ao comércio tradicional. Tanto quanto sei, nestes tempos pandémicos as mercearias ganharam um novo fôlego, e eu sem dúvida que também contribui para isso.

Inicialmente, todos os dias pareciam dias de luto. O peso diário dos números que fazia questão de acompanhar era doentio. Todos os espaços que tivesse de partilhar com outras pessoas eram como zonas de guerra. Depois, como o medo é passageiro e a sensatez prevalece, comecei a encarar as coisas com naturalidade, principalmente quando se generalizou o uso da máscara.

O movimento – ou a falta dele – nas ruas foi o meu barómetro. Como moro perto do meu local de trabalho, a ausência de movimento na estrada não me criou grande benefício, deu-me antes uma noção real de como tantas pessoas tinham deixado de trabalhar. De resto, fez-me sentir um privilegiado por trabalhar na única empresa da área que se manteve com laboração a 100% em todo o período. O facto de grande parte dos nossos clientes se encontrarem na Ásia foi crucial. Levantou-nos no entanto, em determinada altura, problemas com os transportes. Os aviões escasseavam e o nosso produto não era prioritário pois não é de primeira necessidade. Nesse momento, escoar a produção através de navios passou a ser uma das alternativas, e até ligações por ferrovia se tentou, uma vez que a partir de Madrid existe uma linha ferroviária internacional que segue até à China.

Neste momento cheguei a um ponto de equilíbrio. O uso de máscara tornou-se rotina e a proximidade e o atendimento personalizado do comércio tradicional satisfaz-me. É certo que o contacto mais próximo com outras pessoas é evitado, mas eu nunca tive necessidade de levar uma vida muito social. Sou mais adepto da contemplação, do recato e da tranquilidade.