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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Só acontece aos outros

Acordo e vou à varanda. A noite foi de bom sono e inspira-me a respirar fundo e a contemplar a paisagem de montanha. Há ainda uma neblina que rapidamente se dissiparia enquanto o padeiro passa. Desço para preparar o pequeno-almoço espalhando o aroma a café que se esfrega por aquelas paredes em pedra. Pensando já nas necessidades para o almoço, e apesar de no dia anterior ter ido a Espanha fazer as compras da semana, aquilo que ficou esquecido é colmatado na mercearia da aldeia, que apesar de ter de tudo um pouco, a variedade é pouca, e os preços substancialmente mais elevados. No entanto, agrada-me a existência de uma mercearia nas proximidades e sou frequentador assíduo para dar uma pequena ajuda ao negócio.

A entrada faz-se pelo lado do café e como de costume sou o único que se apresenta de máscara. Ali, o estranho sou eu, porque sou de fora, porque uso uma máscara. Olham-me com um ar como se eu me exibisse, como se me colocasse num patamar superior, como se me fizesse de importante. A dona, que me atende sempre com um sorriso e simpatia, bem que colocou os avisos para a obrigatoriedade do uso da máscara e do distanciamento. Inicialmente ela própria cumpria, agora já não. Já fui cliente do seu café, mas outras vezes tal como esta, encontra-se cheio, e ninguém se apresenta com máscara ou cumpre sequer o distanciamento que se exige. Limito-me a entrar rapidamente para a mercearia onde raramente me cruzo com alguém, sirvo-me, e saio com a mesma pressa com que entrei.

O isolamento rural está a dar uma falsa sensação de segurança a estas pessoas. Ai se o bicho pega! Aí, foram os de fora que o trouxeram, foram os de fora que não fizeram cuidado. Já por isso, faço questão que me vejam e que sou o único que ali entra de máscara. Depois não digam que…