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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

Dos almoços mais importantes

O acordar foi com a tranquilidade que se exigia todos os dias. A ida à varanda revela ainda a geada nos campos e a bruma que ainda não desapareceu do circuito do rio. Somos uns privilegiados! Podíamos deixar-nos estar "na nossa". Mas, também sentimos o dever e o respeito por aqueles que nos tratam e servem bem sempre que visitamos a sua casa. O almoço de hoje é mais importante que nos outros dias. O almoço de hoje contribui para que uma porta continue aberta, para empregos, e - não menos importante - para nosso prazer. Hoje, almoçar cedo, é mais do que um cuidado ou uma delicadeza. É respeito pelo trabalho daqueles que sempre nos receberam bem e nos serviram melhor ainda. É uma responsabilidade social dos privilegiados que ainda podem pagar uma refeição num restaurante, aliviando a corda no pescoço daqueles que profissionalmente se dedicam a cada refeição que fazemos fora. Podíamos encomendar e comer em casa. Mas ao meio-dia contribuir para o movimento de um restaurante, ajudará muito mais psicologicamente aquelas pessoas a enfrentarem esta intempérie. A estarem ali para nós e nós para eles.

Confinamento de luxo

Finalmente de regresso à aldeia, onde o meu olhar acaricia as montanhas e o recolher obrigatório se faz a apanhar quivis. Neste sossego a rua é nossa e o sol brilha sem pitada de nuvens no céu. Aqui vive-se a pandemia do silêncio, onde nos ouvimos melhor, onde o limite da nossa visão nos eleva aos cumes onde giram as eólicas, e os finais de tarde se fazem acompanhar da bruma que surge do rio enquanto cai a noite.

Altar da nossa história

Os dias de Outono não me fazem sentir a necessidade de recolhimento forçado. Chove esporadicamente, o sol está envergonhado, mas resolvi fazer a vontade à mulher. Ela queria sair sem destino, ao meu critério. Aproveitei então para passar pelo Corno de Bico antes de seguir rumo ao destino final.

Há uns anos atrás, antes sequer de frequentar o secundário, conheci um senhor de idade avançada, pessoa educada, de trato fácil, generoso e amigo. Apesar dos 50 anos que nos diferenciavam, fizemos passeios pela vila de Sintra e convivíamos nas suas esplanadas como de avô e neto se tratasse. Esta relação veio pela vez do pouco relacionamento que me fora permitido com os meus avós. Este senhor já faleceu há bastantes anos, mas continuo a nutrir por ele um sentimento especial. Apesar de viúvo e de viver sozinho, tinha as suas filhas a viverem por perto, mas que não lhe davam a devida atenção. Nunca me esqueci daquelas mãos cheias de artroses, fruto também da vida de trabalho difícil. Poucas vezes se queixava, gostava de parecer forte, e na realidade era mesmo! Começou a trabalhar muito novo, indo para Lisboa em busca de melhor vida e oportunidades. Na sua terra, Sistelo (Arcos de Valdevez), não iria ter grande futuro. No entanto, visitava-a com frequência, telefonando-me a anunciar a sua chegada através do telefone fixo da mercearia da aldeia. Ainda hoje, a cobertura de rede móvel é uma vergonha.

Visitar a terra do Danilo é como que reviver a nossa história. Os almoços em sua casa, as pataniscas, o café feito de mistura entre o de São Tomé e Príncipe e o do Brasil, que só ele sabia como fazer, em que quantidades misturar. Visitar a sua terra é honra-lo, é não esquecer o aroma e sabor daquele café, o melhor que já bebi!

Chegámos há pouco vindos da aldeia do Sistelo. Sinto que ele ainda está comigo.

No Outono

Chegou o Outono, e com ele, as tonalidades mais quentes, os sabores mais encorpados e envolventes. É um novo despertar para os sentidos, as sensações mais confortantes, de uma lareira acesa, de um chocolate quente ou um café, de um vinho maduro, os sons da chuva e do vento, das árvores que se agitam e se despem. Pode o Outono ser uma estação de extrema felicidade. De maior elegância nas roupas, nos sabores e nas leituras. Estou ansioso por acender a salamandra, dar aquele calor diferente à casa. Trabalho melhor no Outono. Suportam-se muito melhor as máscaras, que nos ajudam a aquecer o rosto, e a combater o vírus. No Outono quase tudo é bom e sabe bem. No Outono, vou ser feliz.

Um covid ao desleixo

Ouvi um colega meu a argumentar que a origem desta crise, em que o desemprego aumenta, que fecha empresas, que aniquila o turismo, que sobrecarrega os serviços de saúde e que faz dos lares antecâmaras da morte, não é o vírus ou a doença por ele provocada. A culpa “é dos jornalistas que vão foder isto tudo”. Para quem já esteve infectado – ele próprio – revela grande consciência do que se passa. Aliás, a maioria dos meus colegas que já foram infectados revelam tamanha consciência, que permanecem no uso da máscara com o nariz de fora.

No sábado, um telefonema desde um dos maiores centros comerciais de Braga indicava que o número limite de pessoas dentro das lojas não estava a ser respeitado. A maioria dessas pessoas nem sequer lá teria ido para fazer compras, mas como chovia, e como é hábito, quem não está para permanecer em casa sossegado, dirige-se para os centros comerciais.

Há dias, ao passar por um quiosque com esplanada, junto ao Centro de Nanotecnologia de Braga, deparei-me com um amontoado de idosos – eram uns vinte, no mínimo – em que uns andavam de máscara ao queixo e outros nem máscara apresentavam. Enquanto a meteorologia permitiu, também o jardim do centro de Caldas das Taipas era ocupado por idosos que se juntavam – decerto – à procura do “bicho”.

Os homens de meia-idade, tal como os idosos, não estão para aturar as mulheres. Era ver esplanadas cheias e as cervejas à frente. Distanciamento é que não havia, mas pelo menos havia tremoços.

São inúmeras as pessoas que fazem o uso da máscara apenas para poderem frequentar os espaços onde ela é obrigatória. Tal como a estudantada que agora a tem de usar na escola, mas mal saem cá para fora, em ameno convívio, tiram-nas fora.

Eu não gosto de me ver neste lado crítico e de observador do que andam afinal os outros a fazer da sua vida. Nem estes exemplos são a maioria – assim espero. Nem tão pouco me vejo com uma moralidade superior, mas cumpro com o que se exige muito antes de ser obrigatório. Não deixo, no entanto, de suspeitar que pelo menos uma bactéria anda a atacar as cabecinhas de muita gente. É certo que o covid pode não matar a maioria – quem somos nós para pôr a vida de uma minoria em causa; pode até ser maioritariamente assintomática e, como o cigarrinho, dois copitos ou mesmo uma passa, está a acabar por ser socialmente aceite.

Sem medo

Um vírus que nos quer menos humanos

Após o término das férias, não foi preciso terminar a segunda semana de trabalho para começarem a surgir novamente casos positivos da Covid-19 na empresa. Tudo parecia encaminhado para se repetir aquela época de angústia vivida na primeira vaga, em que nos enlutávamos todos os dias. Mas não é isso que está a acontecer. É certo que os números estão a repetir-se. É certo que surgem novamente casos no meu local de trabalho. Mas há uma coisa que não está igual. É esta ausência de medo, que me faz encarar com normalidade tudo isto.

Nunca passei pelo confinamento na primeira vaga, mantive-me sempre a trabalhar e a fazer uma vida profissional normal, com a devida documentação que me permitia circular sem ser barrado pelas autoridades. Agora, com as ruas mais cheias de gente era suposto o medo de contágio ser ainda maior. Mas não é. Encaro estas circunstâncias como que um atentado terrorista, em que contrariando os objectivos do terrorista damos aquele sinal claro de que o medo não nos assiste e que não tememos continuar com as nossas vidas, com a nossa liberdade.

O medo é um sentimento transitório, não dura para sempre. Mas o que nos faz ser humanos, mais do que ter ou não ter medo, é ter uma grande racionalidade sobre aquilo que nos depara, e por isso, não há medo mas há a racionalidade de cumprir com aquilo que civicamente se impõe: o respeito pelos outros, com o devido distanciamento físico (não social, ao contrário do que muitas vezes se pede, pois são coisas distintas), o uso da máscara – que não faz cair o nariz a ninguém – a etiqueta respiratória e a lavagem frequente das mãos.

Números de Abril

Oito dias antes do surto que surgiu em Vila Verde, quem passasse junto ao Santuário da Nossa Senhora do Alívio podia assistir à inconsciência colectiva de quem se aglomerava junto das roulotes de comes e bebes, sem o distanciamento que se exige e sem máscaras.

Três dias depois entrei num restaurante que fica numa aldeia pertencente a Guimarães. Estava completamente cheio, sem distanciamento entre as mesas pois nem sequer haviam retirado nenhuma de modo a cumprir as normas. Obviamente que optei por retirar-me. Fica numa freguesia onde agora também se fala na existência de um surto.

Portanto, chegámos a números de Abril, sem surpresas, pois infelizmente há muita gente que faz cuidado e que cumpre com a nova etiqueta, mas muitos mais são aqueles que revelam muita irracionalidade e pouco respeito, desacreditando a humanidade.

É também causa da minha vergonha alheia o facto de que após meio ano de pandemia, ainda haja uma imensa quantidade de pessoas que não sabe como usar a máscara, permanecendo com o nariz de fora.

Não quero pois continuar a martelar nos números que vão divulgando. Não me surpreendem! E como continuo a assistir ao ridículo, não tenho como encarar o futuro de maneira diferente. Estamos a revelar a nossa decadência.

Depressão pós-férias

Quando vinha na auto-estrada apoderou-se em mim aquele sentimento de quem vai para a forca. Aqueles dias maravilhosos em meio rural estavam a ficar para trás. Estas férias ficarão marcadas por aquelas caminhadas sem destino – mesmo dentro da aldeia – em que aleatoriamente se colhe uma amora silvestre sem compromissos nenhuns com o tempo, com o fazer, com a consequência. Acho que nunca me irei cansar deste ambiente campestre, nem mesmo com o ar gélido que ocupará em breve as montanhas.

A véspera da partida para o pica-boi estava a criar uma aura negativista. Já me tinha inteirado de que iria haver música à noite na vila de Paredes de Coura. Sem o festival de todos os anos, o município optou por convidar durante os fins-de-semana de Agosto bandas itinerantes para darem música à noite courense. Não tinha sentido o chamamento nem a necessidade até então, mas querendo ajudar o cérebro a conformar-se com o regresso ao trabalho, a despedida destes dias pediam algo diferente.

Eram as 21 horas e a temperatura mais parecia de Outono. Sem olhar para trás sigo para a rua de t-shirt e calções. Hei-de ficar rijo, e se o frio vier, terei de dançar até aquecer – disse. A estrada apesar de ter bom piso, é a estrada própria de montanha, com imensas curvas, bastante apertadas e em forma de cotovelo. Não estava a 100%, mas contava que o fresco da noite me despertasse para outra dimensão.

À chegada dei com os músicos a afinar os instrumentos. Parei mesmo ali com a intenção de fazer o trajecto a pé com eles pelas ruas do centro da vila. Começaram mais cedo e em grande agitação. A música fazia bater o pé e lançava alegria contagiante. Eu só tinha de me deixar levar e seguir ao ritmo dos KhaganiçOrchestra. A partir daí, caguei mesmo nisso, e esqueci que no dia a seguir iria estar a trabalhar. Já no trabalho, a meio do dia, lá me passou a neura de ter regressado à rotina. Acho que a música ajudou, muito!

Dia do cão

Os cães resgatados que vivem comigo

Os meus dois cães: Molly e Bolinhas

Estes dois já tiveram a sua dose. Venho por isso apresenta-los aproveitando o facto de ontem ter sido o dia do cão. Não sou grande adepto de dias atirados aleatoriamente para o calendário, no entanto, compreendo a finalidade em sublinhar a importância a que o dia se dedica.

A Molly (à esquerda) terá sido abandonada. Foi resgatada da rua há já uns anos. Tem um rasgo junto ao olho devido a ataques que terá sofrido na rua. Os seus comportamentos são de quem permanecia muito tempo sozinha e de quem esteve a viver num espaço muito reduzido, dando voltas repetidas em círculos. Tem uma tara por reflexos porque provavelmente no local onde viveu ocorriam com frequência reflexos (por exemplo, com a passagem de carros nas proximidades), tornando-se o entretenimento favorito dela. Talvez lhe venha a oferecer uma bola de espelhos.

O Bolinhas (à direita) sofria de maus tractos. Foi resgatado há coisa de três semanas. As moscas acumulavam-se nas poças de sangue das feridas. Falta-lhe parte das orelhas, comidas pelas moscas. Após duas semanas em que lhe tratei das feridas, as mesmas já sararam e estão a fechar. O objectivo do resgate era resolver o problema das feridas e prepará-lo para adopção, mas já não vai sair cá de casa. Resolvi adoptá-lo dada a gratidão que ele tem para comigo.

Estão os dois muito mal habituados com a maior disponibilidade do dono. É só mimo, passeios e comer. Portam-se muito bem em viagem no carro. Com o fim das férias fico menos preocupado com a Molly, que apesar de ter bastante espaço exterior para andar, ficava sozinha enquanto eu me ausentava para trabalhar. Agora ganhou uma nova companhia.

Só acontece aos outros

Acordo e vou à varanda. A noite foi de bom sono e inspira-me a respirar fundo e a contemplar a paisagem de montanha. Há ainda uma neblina que rapidamente se dissiparia enquanto o padeiro passa. Desço para preparar o pequeno-almoço espalhando o aroma a café que se esfrega por aquelas paredes em pedra. Pensando já nas necessidades para o almoço, e apesar de no dia anterior ter ido a Espanha fazer as compras da semana, aquilo que ficou esquecido é colmatado na mercearia da aldeia, que apesar de ter de tudo um pouco, a variedade é pouca, e os preços substancialmente mais elevados. No entanto, agrada-me a existência de uma mercearia nas proximidades e sou frequentador assíduo para dar uma pequena ajuda ao negócio.

A entrada faz-se pelo lado do café e como de costume sou o único que se apresenta de máscara. Ali, o estranho sou eu, porque sou de fora, porque uso uma máscara. Olham-me com um ar como se eu me exibisse, como se me colocasse num patamar superior, como se me fizesse de importante. A dona, que me atende sempre com um sorriso e simpatia, bem que colocou os avisos para a obrigatoriedade do uso da máscara e do distanciamento. Inicialmente ela própria cumpria, agora já não. Já fui cliente do seu café, mas outras vezes tal como esta, encontra-se cheio, e ninguém se apresenta com máscara ou cumpre sequer o distanciamento que se exige. Limito-me a entrar rapidamente para a mercearia onde raramente me cruzo com alguém, sirvo-me, e saio com a mesma pressa com que entrei.

O isolamento rural está a dar uma falsa sensação de segurança a estas pessoas. Ai se o bicho pega! Aí, foram os de fora que o trouxeram, foram os de fora que não fizeram cuidado. Já por isso, faço questão que me vejam e que sou o único que ali entra de máscara. Depois não digam que…