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Último Reduto

O pensamento é o meu refúgio, o último reduto daquilo que sou.

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“Vacina” à portuguesa

A aplicação móvel "StayAway Covid"

O objectivo primordial do Governo ao investir no desenvolvimento deste tipo de aplicação é colmatar a falta de capacidade em rastrear os contactos das pessoas infectadas. Os governantes viram aqui uma oportunidade de evitar contratações, evitar maiores gastos em recursos humanos, como se o SNS já não fosse carente nessa matéria, mesmo antes de começar esta crise sanitária. Muitos saberão que antigamente diversas instituições públicas, como sejam as escolas ou os centros de saúde, possuíam pelo menos uma pessoa cujas funções eram de telefonista. Pois à medida que os telefonistas deste país, dos diversos serviços públicos, se foram reformando, extinguiu-se esse lugar e distribuiu-se a função por trabalhadores de secretariado, funcionários cujas funções eram apenas o atendimento presencial e viram-se com mais este papel a desempenhar, e até, por vigilantes de segurança privada, cujo papel de controlo de acessos se vê acumulado com esta tarefa que em nada tem a ver com a cultura de segurança. É deste tipo de recursos humanos que também o SNS está carente, e um telefonista não leva quatro ou cinco anos a formar-se como um médico ou um enfermeiro intensivista. Elaborar uma aplicação para substituir uma tarefa humanizada, como se na saúde a humanização não fosse importantíssima, a mim não me convence.

A aplicação baseia o seu funcionamento no Bluetooth. Mas a própria limitação tecnológica do Bluetooth impede a aplicação de ter a capacidade de medir distâncias e de avaliar apenas o que está até dois metros. O Bluetooth tem uma cobertura que anda à ordem dos dez metros. A diferença do ideal dois metros para uma realidade no terreno que vai aos dez metros é uma diferença que desencadeará muitos mais falsos alarmes, subcarregando ainda mais o sistema, com contactos desnecessários para o centro de contactos do SNS, realização de testes desnecessários, e uma maior quantidade de processos igualmente suportados pelo SNS. Os dez metros que o Bluetooth é capaz de cobrir só diminuem à medida que se colocam obstáculos na frente, como paredes, divisórias, vegetação, etc. A aplicação usando esta tecnologia poderá detectar, por exemplo, contactos próximos dois andares acima ou abaixo de nós num mesmo prédio. Pode associar que todo um escritório open space é um contacto próximo de nós, mesmo sem o ser. É esta falta de definição que também não me convence, retirando a credibilidade e confiança que se poderia ter com a aplicação.

Quando a aplicação portuguesa foi desenvolvida, muitas outras internacionalmente já se encontravam em uso. Apesar de se ter constatado que a nível internacional este tipo de soluções estavam a ser um completo fracasso, o projecto português nunca parou. O Primeiro-Ministro quer empurrar a responsabilidade para a população, mas quem tem de justificar o investimento público de 400 mil euros é ele, que teimosamente avançou com este paliativo como se tratasse da invenção da vacina portuguesa.

Por outro lado, o autoritarismo que o próprio Primeiro-Ministro já admitiu ter praticado ao querer impor o uso da aplicação nunca resolveu nenhuma pandemia. Pelo contrário, cria repulsão, revolta e falta de confiança. Custa-me a crer que isto tenha sido apenas para o “abanão” que António Costa julga necessário. E como me custa a acreditar que o Primeiro-Ministro visse este caminho como válido, sendo ele um político ardiloso, a dita bomba autoritária foi atirada com o intuito de criar o ruído necessário para que se desvie a atenção das negociações do Orçamento do Estado. Não deixará, no entanto, de ter consequências políticas, pois nem a brincar o autoritarismo é bom.